TEÓLOGOS MAL UTILIZADOS NO SITE MENTES BEREANAS E O ANIQUILACIONISMO
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Conteúdo

Introdução

1. A metodologia do autoengano

2. A negação da realidade

3. A prevalência da forma sobre a essência

4. O literalismo de conveniência

5. Distorções deliberadas, leitura deficiente ou limitação cognitiva?

6. Sobre o uso inadequado de enciclopédias bíblicas

        a) Enciclopédia Católica

        b) Enciclopédia Judaica

        c) Enciclopédia Bíblica Padrão (protestante)

7. Um verdadeiro exemplo de ampla deturpação do que disseram os eruditos

8. O desconhecimento de fontes primárias

Conclusão

Apêndice

A. O conceito materialista da inexistência após a morte

B. Comunicação com o autor do MB

C. Conversa com um amigo sobre as atitudes do “bereano”

Traduções da Bíblia utilizadas

Texto revisto e ampliado.

Autor: Adelmo Medeiros

Fortaleza, 18 de julho de 2018.

 

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INTRODUÇÃO

Imortalidade condicional (também conhecida como aniquilacionismo). Uma teoria segundo a qual a imortalidade não é um atributo necessário da alma imaterial, mas condicionada ao seu comportamento durante a vida do corpo... O ensinamento da mortalidade da alma é geralmente considerado como em oposição à doutrina cristã do homem e a dignidade e responsabilidade da alma humana. No entanto, ele tem sido recentemente revivido por alguns teólogos evangélicos, que sustentam que a aniquilação ocorre depois de um período de tormento no Inferno.

The Oxford Dictionary of the Christian Church, 1997, verbete “Imortalidade Condicional”, p. 393.

 

Eu escrevi um livro onde comento um texto publicado pelo autor do site Mentes Bereanas (MB) onde ele cita um grande rol de fontes teológicas no intuito de apoiar o aniquilacionismo. Entretanto, é um uso inadequado, pois, em sua maioria, os autores desse material disseram claramente que acreditam na vida imediata após a morte e também que os ímpios sofrerão eternamente nas chamas do inferno, também conhecido como Hades ou Geena. O “bereano”, porém, diz que os mortos entram em um estado de inatividade absoluta, chamado figurativamente de “sono”, que poderá ser eterno ou temporário, a depender do que Deus decidir no futuro distante. Na prática, é um estado de inexistência total. Os que forem julgados favoravelmente serão recriados, ao passo que os demais continuarão apagados da vida e será ratificada a aniquilação deles, ficando para sempre extintos.

Não obstante o contraste que há entre a crença defendida pelo autor do Mentes Bereanas e a da maioria dos eruditos bíblicos, ele se sentiu à vontade para citar determinadas declarações deles que supostamente apoiariam o que ele defende. Um exemplo é o próprio dicionário de Oxford acima destacado. O simples fato de se usar obras que foram escritas por autores que podem ser tranquilamente classificados como “imortalistas” já é em si um procedimento de grande ousadia. No entanto, em resposta à minha crítica, o “bereano” foi muito mais além por dizer que a intenção dele não foi defender o aniquilacionismo e que seria eu quem distorce os referidos escritores. E para completar essa reação bizarra, ainda fez as seguintes declarações sobre mim:

A ampla deturpação das declarações dos eruditos e essa persistência deplorável em “argumentar” com base em representações falsas de declarações de outros (“espantalhos”) são – e sempre serão – atitudes merecedoras das mais pesadas críticas (visto serem indignas de quem alega seguir a Cristo e respeitar a verdade bíblica), e não só isso: elas merecem também ser expostas como o que realmente são. As Escrituras dão o nome correto para isso, e apresentam – sem rodeios – o conceito do Autor delas sobre quem persiste nessas práticas:

Há seis coisas que o Senhor detesta; sim, há sete que ele abomina: ... língua mentirosa, e... a testemunha falsa que profere mentiras. – Prov. 6:16-19

O Senhor odeia os lábios mentirosos. – Prov. 12.22

Fora [do Reino de Deus] ficam ... todos os que amam e praticam a mentira. – Apo. 22:15.

Quando alguém escreve algo assim com tamanha confiança, qualquer um poderá supor que o autor dessas críticas possui uma base irrefutável de evidências ao seu favor, ainda que não tenha a autoridade divina necessária para fazer esse tipo de julgamento. Mas será que há uma mínima possibilidade do “bereano” estar com a razão nesse assunto? Vejam por si mesmos a partir de agora.

Para iniciar o exame dessa arriscada estratégia do autor do MB de inverter a realidade dos fatos, vou comentar alguns dos argumentos que ele utilizou em sua tentativa de refutar afirmações do meu livro e também apresentarei informações adicionais que poderão ser úteis para ponderar a situação. E para verificar diretamente as fontes das quais foram feitas citações, cliquem nos links indicados que encaminham às respectivas obras citadas. Essa consulta é útil para ler integralmente os trechos cujas citações foram apenas parciais ou com acréscimo de colchetes, recursos que utilizei apenas para deixá-las mais curtas ou esclarecer algum detalhe do contexto delas.

1. A METODOLOGIA DO AUTOENGANO

O que ele fez, na verdade, foi projetar para outra pessoa o objeto da discussão, desviando o foco de si mesmo. Isto se reflete no próprio título do texto dele: “Esforços Para Anular o Que Disseram os Eruditos Bíblicos”. O problema não são os eruditos citados, por isso nem me passou pela cabeça refutá-los, salvo os que são abertamente aniquilacionistas. O cerne da questão é o uso comprovadamente inapropriado que o “bereano” fez de vários autores. Isto é tão óbvio que estaria acima de qualquer discussão, como ficou demonstrado já no início deste artigo no Oxford Dictionary.

São poucos os escritores que o autor do MB cita que realmente estão alinhados com o que ele pensa a respeito do que acontece depois da morte. O que ocorre é que vários deles rejeitaram o status de importância que a linguagem aprendida na filosofia grega adquiriu na teologia cristã ao longo dos séculos. Chegaram à conclusão de que o Cristianismo não precisa disso para expor a fé na vida imediata após a morte, que ocorre antes mesmo da ressurreição geral dos mortos. Sim, essa nova postura não resultou no abandono da crença de que as pessoas continuam vivas de alguma maneira depois que o corpo morre, mesmo que alguns dos eruditos não queiram chamar essa parte que sobrevive de “alma”, que ainda não possui o corpo glorioso que receberá na ressurreição, mas apenas um corpo imaterial (não feito de carne humana) apto o suficiente para estar na situação temporária em que se encontra. No meu livro há uma análise mais detalhada desses pormenores.

Conforme dito, os autores que adquiriram esse grau de sensibilidade exagerada ao linguajar da filosofia grega, bem como a uma eventual importação de algum conceito dela, não abriram mão do entendimento de que logo após a morte a pessoa acorda consciente em algum lugar. É o caso do teólogo Robert Farrar Capon. Segundo ele, Deus faz um “truque” para que tal fenômeno de transferência ocorra sem nenhuma dicotomia, tal como aquela em que os gregos acreditavam. Mesmo assim, Capon apresenta o pensamento cristão tradicional de que os fiéis vão para o céu e os demais para o inferno. E ele apresenta com muita seriedade a crença em tais destinos imediatos após a morte. A seguir algumas afirmações que ele fez (os destaques em negrito e azul são meus):

“A velha balela sobre o céu ser para os bons e o inferno para os caras maus está completamente errada. O céu É povoado inteiramente por pecadores perdoados... e o inferno É povoado inteiramente por pecadores perdoados. A única diferença entre os dois grupos é que aqueles que estão no céu aceitam o perdão e aqueles que estão no inferno o rejeitam”. – The Mystery of Christ… And Why We Don’t Get It, Eerdmans, 1993, p. 10.

(Alguém que não existe ou está “dormindo” pode nutrir sentimentos como o de aceitar ou rejeitar alguma coisa?)

“Sem dúvida, a aniquilação deixaria uma eternidade mais agradável [para os pecadores impenitentes]. Mas, aparentemente, a aniquilação não é uma das opções de Deus”. – Between Noon and Three: Romance, Law, and the Outrage of Grace, Eerdmans, 1997, p. 276.

“Uma vez eu fui acusado de ser um universalista e não acreditar nas doutrinas das Escrituras sobre o inferno e a punição eterna... Mas eu não sou um universalista... Encaro com toda a seriedade tudo o que Jesus tinha a dizer sobre o inferno, incluindo o tormento eterno de modo que uma insensibilidade tola de não aceitá-lo implicaria em sua aceitação”. – The Romance of the Word: One Man's Love Affair with Theology: Three Books, Eerdmans, 1995, pp. 9, 10.

Como se vê, para Capon os pecadores impenitentes terão como punição eterna o sofrimento no inferno (Geena) e não a inexistência ou aniquilamento. Por outro lado, servos dedicados a exemplo de Abraão são recebidos imediatamente no céu após a morte, conforme disse outro erudito também usado pelo autor do MB para apoiar o aniquilacionismo:

“Visto que ele, Abraão, morreu como um bom hebreu, ele não teria tido nenhuma noção de sua própria sobrevivência após a morte. Mas com uma pequena licença cristã, podemos seguramente [atribuir a ele as seguintes palavras de John Bunyan:] . . . . ‘Ele se foi, e todas as trombetas soaram para ele no outro lado’.”. – Gênesis – Volume I, de John C. L. Gibson, Westminster John Knox Press, Louisville, Kentucky, EUA, 1981, pp. 132-135.

Diante do que foi exposto, vejam só o que o “bereano” fez. Ao perceber que tais eruditos não estão realmente apoiando o que ele gostaria, resolveu mesmo assim passar para o lado deles (ao menos no discurso), elogiá-los por suas competências e falar coisas que na realidade ele não acredita, a exemplo destas que ele escreveu em seu último artigo crítico (destacadas em negrito):

O Seol [Hades] e a morte, na visão hebraica e cristã primitiva eram bem reais, e encarados com toda a seriedade – como devem ser mesmo. Nenhum estudioso sério da Bíblia levantou questão quanto a isso....

E é evidente que “a Bíblia Hebraica atesta a realidade do mundo inferior”. Até onde se sabe, nenhum erudito cristão questionou isso, assim como nenhum deles jamais afirmou que a morte “significa a aniquilação ou extinção total de quem morreu”. Quem quer que tenha dito isso, não foi um erudito bíblico! Isto contradiria frontalmente o que Cristo disse em Mateus 10:28: O único que pode ‘aniquilar’ ou ‘extinguir totalmente’ é Deus; isto não se segue necessariamente à morte de ninguém.

O sentido bíblico de “dormindo” ou “sono” duma pessoa morta é realmente este: inconsciência e inatividade. Nenhum escritor bíblico que usou este termo quis dizer que o sujeito foi aniquilado e não existe mais”... Esta situação só ocorre no caso dum indivíduo falecido se Deus decidir assim (este é o sentido de “destruir na Geena tanto a alma como o corpo”, referido por Jesus em Mateus 10:28).

Nem ele [Nelson Darby], nem qualquer cristão que aceita o testemunho das Escrituras endossaria a conclusão de que “Cristo deixou de existir entre a tarde de uma sexta-feira e a manhã de um domingo”. Esta ideia não existe na Bíblia, não foi expressa por Darby, nem por erudito bíblico algum.

A “Geena” bíblica realmente não é um simbolismo disso [da permanência em um estado de inexistência completa]. A “Geena” é o símbolo da aniquilação após a decisão divina, e não um simbolismo “que se refere aos que Deus decide manter aniquilados”. Existe uma diferença entre estes conceitos, e não deveria haver essa tentativa de confundir os leitores.

Naturalmente, alguns leitores poderão acreditar nessa conversa capciosa porque não conhecem com precisão o que o autor do MB aprendeu na religião “Testemunhas de Jeová” sobre o que acontece depois da morte. Mas os que são desse movimento religioso, ou já passaram por ele, sabem muito bem que eles ensinam basicamente o seguinte:

1) A alma é o próprio homem e quando o homem morre a pessoa desaparece completamente. Então, dizer que “os mortos estão dormindo” é apenas um eufemismo para descrever a real situação, que é literalmente de inexistência, eterna ou temporária a depender do que Deus decidir no futuro.

2) A única esperança dos que morreram é que Deus possui em sua vasta memória todas as informações de quem estava vivo e pode recriá-lo em um novo corpo, com as lembranças e características pessoais que tinha até o falecimento. Por isso, poder-se-ia dizer que os mortos estão vivos na mente de Deus. Mas isto é também outra figura de linguagem, pois eles não estão vivos de verdade.

3) O Seol / Hades (“inferno”) não existe qual local inacessível no subterrâneo da Terra para onde são enviados os mortos, a exemplo do rico da parábola de Lázaro, caso Deus não dê outro destino para eles, como foi o caso do próprio Lázaro. [Curiosidade: Jesus disse que ficaria três dias e três noites em tal lugar, mas na sepultura ele só passou duas noites]. No ensino das testemunhas “de” Jeová o Seol é chamado de “sepultura comum da humanidade”, já que não pode ser confundido com sepulturas individuais, embora alguns façam isso conforme a conveniência. Na prática, porém, é apenas o símbolo da morte, da mesma maneira que o “lago de fogo” ou a “Geena” representariam a inexistência eterna. Nada mais do que isso.

De posse das informações acima, quem lhes parece então que está querendo confundir os leitores? Logo, chegamos às seguintes constatações:

1) Na realidade, o “bereano” não acredita em mundo inferior algum, pois para ele tal região invisível não existe de fato. Vejam na seção “O literalismo de conveniência” o que significa realmente aceitar a realidade do mundo inferior.

2) Na crença que ele defende não há efetivamente nenhuma diferença entre o dia depois da morte e o dia seguinte ao julgamento dos ímpios. O estado em ambos os momentos é exatamente o mesmo. Sendo assim, após a morte todos já estão na situação em que deverão ficar aqueles que Deus julgar inaptos para a vida eterna. Ou seja, inconsciência absoluta ou inexistência total. Deste modo, para o autor do MB a aniquilação ocorre sim imediatamente depois da morte, ele apenas não quer se referir a ela dessa maneira, a fim de harmonizar o que ele acredita com aquilo que Jesus disse em Mateus 10:28.

Portanto, trata-se apenas de um jogo semântico de palavras. Por convenção, enquanto o julgamento não acontece é dito que os mortos “estão no Hades”, mas depois do Juízo Final os que permanecerem no estado em que já se encontram irão para a “Geena ardente” (ou “lago de fogo”). Mas, por ser apenas uma descrição simbólica, ninguém estará realmente neste ou naquele lugar, e nem será levado a Tribunal algum para ouvir sua sentença, pois o cumprimento da pena começou antes mesmo do julgamento e já está em pleno andamento para aqueles que serão julgados desfavoravelmente, contradizendo assim textos bíblicos que mencionam a ressurreição dos justos e dos injustos que escutarão o veredicto por seus pecados. – João 5:28, 29; Atos 24:15; Mateus 25:41.

E notem outro detalhe no que concerne ao argumento de que os mortos estão simbolicamente vivos na memória de Deus, e por isso podem ser trazidos de volta à vida em um processo de recriação (e transferência de informações). Esta visão implica dizer que aqueles que não forem efetivamente ressuscitados permanecerão “vivos” para sempre na mente de Deus, pois certamente Ele não se esquece de nada e não vai impor a si mesmo uma amnésia para fazer cumprir o “aniquilamento” total de tais pessoas em Sua mente, conforme a interpretação que o “bereano” quer importar para dentro da Bíblia a qualquer custo, ignorando inclusive as primeiras obras patrísticas que atestam que tal entendimento jamais existiu na história da igreja primitiva. Mas é claro, ele não sabe disso, pois nunca leu a antiga literatura cristã que nos apresenta esse fato.

2. A NEGAÇÃO DA REALIDADE

Ao confrontar a realidade (essência) com a aparência (forma) das declarações supracitadas do “bereano”, podemos chegar a algumas conclusões que talvez expliquem as atitudes dele, a exemplo destas duas:

1) Ele age de forma desonesta, fruto de teimosia cega.

2) Formulou uma nova interpretação (“crença”) para fugir da alcunha de aniquilacionista.

Acredito mais na segunda hipótese com pitadas de elementos da primeira. Se for isso, ele vai ter que se esforçar muito para explicar que espécie de novo entendimento é esse para desfazer as contradições que sua “exegese” invertida produziu. E mesmo que tente e seja parcialmente bem sucedido, ele jamais conseguirá escapar de uma coisa: de ter se valido de escritores que, nem de longe, defendem o que ele acredita.

E para não restar dúvida quanto a isso, notem o exemplo do comentarista Nelson Darby, a quem o “bereano” elogiou como sendo um “condicionalista” que supostamente acreditava que ‘o Hades bíblico’ é apenas uma maneira de se referir à condição de inconsciência dos mortos e não a um lugar literal no interior da Terra para onde as “sombras” (almas imateriais) normalmente são enviadas.

Como ficou claro no verbete citado inicialmente, do Oxford Dictionary, o autor do MB está sim defendendo o aniquilacionismo, sob qualquer perspectiva que se analise, e as obras que citou são majoritariamente contra tal opinião. É o caso do referido dicionário, ao afirmar que o homem possui uma alma imaterial que sobrevive à morte do corpo e basta não acreditar no tormento eterno para ser classificado como “aniquilacionista”. Este conceito não se refere apenas à descrença no ensino de que as almas imateriais continuam existindo literalmente no Hades ou no céu. A psicologia reversa que o “bereano” está utilizando para inverter a seu favor o sentido do que foi dito pelos eruditos não anula tais fatos. Com isso em mente, notem agora as verdadeiras convicções de Darby a respeito do que ocorre depois da morte e as confrontem com as declarações do “bereano” extraídas dos comentários dele sobre esse mesmíssimo autor:

“Já vimos, em um artigo anterior, que a alma não deixa de existir com o corpo. E que a parábola do homem rico certamente ensina que os ímpios existem na miséria”. – Eternal Punishment, Scriptural Enquiry As To The Doctrine Of Eternal Punishment Contained In J. P. Ham's Theological Tracts, de Nelson H. Darby.

“No conceito deles [dos hebreus], o que ocorria com o corpo, ocorria automaticamente com a ‘alma’, visto que o homem é uma alma”. – Autor do MB.

(Uma comunidade cristã árabe do século III chegou a crer exatamente nisto, de que a alma morre junto com o corpo, porém abandonou essa ideia depois que Orígenes os convenceu que estavam errados. Esse acontecimento está melhor descrito na seção “O desconhecimento de fontes primárias”).

“O trabalho foi realizado na cruz, o qual poderia transportar uma alma para o paraíso... E agora o ladrão arrependido É uma brilhante testemunha da graça perfeita e salvação eterna através do Seu sangue”. – Notes on the Gospel of Luke, 1869, de John Nelson Darby, pp. 233-235.

“E ainda que fosse verdade que o termo ‘sombras’ dá a entender ‘criaturas debilitadas’ no Seol, que não usufruem ‘verdadeira vida’, e sim uma ‘existência rebaixada’ ou ‘triste’... isso ainda anularia outras teorias, tais como aquela da ‘vida melhor depois da morte’, ou a ideia de que certos mortos vão para algum tipo de ‘paraíso’ idílico radiante, para lá usufruir ‘paz, alegria e vida sem fim’.”. – Autor do MB.

“... esta doutrina [do aniquilacionismo] é uma heresia mortal e desmoralizante... a morte nunca significa deixar de existir. A Escritura fala de lançar a alma no inferno depois que o corpo é morto. Assim, na parábola do homem rico e Lázaro, eles subsistem após a morte... ‘Porque todos vivem para ele’ - homens mortos, mas sempre vivos para Deus... A segunda morte é mesmo serem lançados no lago de fogo, onde são atormentados. Ou seja, não deixam de existir... esse materialismo quanto à alma [defendido pelos aniquilacionistas] é totalmente contrário às Escrituras... comparar nossa alma com os animais é falso. Além do que citei dos Evangelhos... [que] prova demonstrativamente que subsistimos depois da morte. A morte dissolve o nosso estado atual de existência, mas essa existência não cessa de maneira absoluta”. – The Doctrine of Annihilation; Eternal Punishment, de John Nelson Darby, extraído de Notes, Letters & Other Darby Writings, carta 1.

“O Novo Testamento não apresenta em lugar algum a ideia de que... há tormento literal após a morte de alguém. Nenhum dos quatro textos citados afirma essas coisas [Mateus 25:41, 46, Marcos 9:43-48, Lucas 16:19-31 e Apocalipse 20:10]”. – Autor do MB.

“Quando Jesus declarou, em Lucas 12:5... que ‘só Deus tem poder de lançar o corpo e a alma no inferno’ (a tradução correta aqui é Geena) não quer dizer que Deus lança literalmente pessoas em algum lugar ‘ardente’, de tormentos. Esta ideia é fruto da filosofia grega e das religiões pagãs da antiguidade, e não tem nada que ver com a Bíblia... significa que só Deus pode determinar se alguém será ressuscitado ou não. Se Ele decidir não ressuscitar, tal pessoa estará morta para sempre, sem qualquer possibilidade de retorno. Este é o sentido de ‘lançar na Geena’... Como no tempo de Jesus a Geena era um lugar literal onde se mantinha o fogo aceso para destruir o lixo, Darby associou o fogo ao conceito de ‘inferno’ que ele tinha. Porém, o ‘inferno’ bíblico não é um lugar de fogo de tormentos, e a ‘geena’ significa ‘aniquilação’ ou ‘destruição’ (não tormento)”. – Autor do MB.

Como se nota, para Nelson Darby, o aniquilamento das almas não ocorre em momento algum do tempo. Por isso, ele não era aniquilacionista sob nenhum aspecto. Bem diferente do “bereano”, que endossa textos a exemplo deste:

Inferno ― Tormento Eterno ou Aniquilamento?

E o autor do MB ainda tem o atrevimento de dizer que não está defendendo o aniquilacionismo! Se isso não é um comportamento dissimulado, o que mais poderia ser?

Quanto ao que ele afirmou de que a ideia de tormento eterno nada tem a ver com a Bíblia, e que seria fruto da filosofia grega, transcrevo abaixo um dos textos que supostamente não teria nenhuma relação com esse tipo de punição:

“E o diabo, que os enganava, foi lançado no lago de fogo e enxofre, onde estão a besta e o falso profeta; e de dia e de noite serão atormentados para todo o sempre”. – Apocalipse 20:10, ACR.

Agora resta ao “bereano” buscar nas antigas obras de filosofia dos gregos, em especial as de Platão, onde tal ensino aparece, caso queira mostrar algum fundamento para justificar o que disse. Algo me diz que ele não será bem sucedido, a não ser que busque na mitologia grega...

3. A PREVALÊNCIA DA FORMA SOBRE A ESSÊNCIA

Em um trecho do meu livro eu fiz a seguinte afirmação:

“Darby deu [ênfase] ao ensinamento da ressurreição, dizendo que ela era o tema central da igreja primitiva, mas depois perdeu espaço para a perspectiva da alma ir para a presença de Cristo imediatamente depois da morte, crença que também é verdadeira”.

Ao contestar essa parte, o autor do MB escreveu:

“Não foi isso o que Darby disse. As palavras dele foram: ‘... eu gostaria de expressar a convicção de que a ideia da imortalidade da alma, embora reconhecida em Lucas 12:5 e 20:38, não é, em geral, um tema do evangelho; que isso vem, ao contrário, dos platonistas;’ As expressões usadas por Darby foram ‘convicção’ (não ‘ênfase’), ‘imortalidade da alma’ (não ‘perspectiva da alma ir para a presença de Cristo imediatamente depois da morte’) e ‘tema do evangelho’ (não ‘tema central da igreja primitiva’). Todos estes são conceitos distintos; é inútil qualquer tentativa de confundi-los. Ademais, ninguém nas Escrituras falou alguma coisa sobre ‘a alma ir para a presença de Cristo imediatamente depois da morte’.”.

Assim realmente fica difícil... Mesmo quando o “bereano” se depara com a informação correta debaixo do próprio nariz ele não consegue enxergá-la! O trecho mencionado dos escritos de Darby mostra que ele não tinha nada contra o conceito de que a alma permanece viva depois da morte e que ela pode ir sim para o céu (mesmo não sendo a regra). Apenas enfatizou que sua convicção era de que tal ensinamento não fazia parte do tema central do evangelho, mas sim a ressurreição, que é outro ensino com o qual estou de pleno acordo. As citações dos escritos de Nelson Darby que foram mostradas na seção anterior, e que foram ignoradas pelo autor do MB, atestam isso sem nenhuma margem de dúvida.

Sendo assim, me pergunto: será que o apego irracional ou emocional a uma crença resulta em analfabetismo funcional momentâneo a ponto da pessoa não compreender citações tão simples? É o que parece quando se analisa a maneira como Darby está sendo compreendido pelo autor do MB. E esse padrão é recorrente. Ele aparece até na afirmação de que não existe nenhum texto bíblico que diga que a alma vai para a presença de Cristo imediatamente depois da morte. A seguir alguns textos comumente usados para mostrar que ela realmente pode ir para o céu:

“Mas, temos boa coragem e bem nos agradamos antes de ficar ausentes do corpo e de fazer o nosso lar com o Senhor”. – 2 Coríntios 5:8, 9, TNM.

“É justo despertar-vos com as minhas admoestações, enquanto estou nesta tenda terrena [o corpo], sabendo que em breve hei de despojar-me dela. . . Assim farei tudo para que, depois da minha partida, vos lembreis sempre delas”. – 2 Pedro 1:13-15, BJ.

“Sinto-me num dilema: meu desejo é partir [pela morte] e ir estar com Cristo, pois isso me é muito melhor, mas o permanecer na carne é mais necessário por vossa causa”. – Filipenses 1:21-23, BJ.

Vemos aí exatamente o que Darby entendia e defendia, sem prejuízo ao conceito da ressurreição! E que é confirmado por um discípulo direto de Pedro e Paulo, que os conheceu pessoalmente e ficou encarregado de cuidar da congregação de Roma no final do século I:

“Mas para não nos determos em exemplos antigos, vamos aos mais recentes heróis espirituais. Tomemos os exemplos nobres fornecidos em nossa própria geração... Pedro, por causa de inveja injusta, não suportou nem um nem dois, mas muitos labores, e quando, por fim, sofreu o martírio, partiu para o lugar de glória que lhe era devido. Por causa da inveja, Paulo também obteve a recompensa da perseverança... Depois de pregar tanto no Oriente como no Ocidente... foi removido do mundo, e entrou no lugar santo, tendo provado ser um exemplo impressionante de paciência”. – Carta aos Coríntios, Clemente de Roma, cap. 5, século I d.C.

Daí vem o autor do MB e diz: “Mas onde é que esses textos usam a palavra ‘alma’?” De fato, eles não a utilizam, porém ela está mais do que subentendida. Se os personagens mencionados deixaram o corpo terrestre para trás, e só obteriam outro com semelhantes características na ressurreição, significa então que não foi em um corpo assim que eles ‘entraram no lugar santo’, mas sim em corpos não carnais, parecidos com os dos anjos. E o que é isso senão o que geralmente chamamos de alma?

É por essas e outras (muitas outras...) que, com o tempo, a igreja primitiva passou a se referir mais abertamente a esse estado intermediário como sendo um estado apenas da alma. Mas, como quase sempre, o “bereano” se apega à forma e ignora a essência. Por não ver literalmente a palavra “alma” nas referidas citações bíblicas ele não admite o que esses textos estão dizendo. E mesmo que ela aparecesse, ele daria um jeito de não aceitar a leitura natural dos textos, como, aliás, ele já faz com o versículo abaixo:

“E eu vi tronos, e havia os que se assentavam neles, e foi-lhes dado poder para julgar. Sim, vi [no céu] as almas dos executados com o machado, pelo testemunho que deram de Jesus e por terem falado a respeito de Deus”. – Apocalipse 20:4, TNM.

E a mesma coisa com o texto a seguir, que usa a palavra “espíritos” com sentido semelhante:

“Mas vós vos aproximastes da montanha de Sião e da cidade do Deus vivo, a Jerusalém celeste, e das miríades de anjos em reunião festiva, e da assembleia dos primogênitos, cujos nomes estão inscritos nos céus, e de Deus, o juiz de todos e dos espíritos dos justos que chegaram à perfeição”. – Hebreus 12:9, 22, 23, TEB; a tradução bíblica da CNBB verteu por “almas” ao invés de “espíritos”.

Por isso, não é de admirar que essa limitação autoimposta no nível de cognição impeça também o autor do MB de compreender o que Darby escreveu. E ele ainda por cima afirma que sou eu quem estaria distorcendo o que Darby disse e colocando palavras na boca dele! Isso que o autor do MB está fazendo é realmente muito bizarro. Talvez esse assunto não interesse a muita gente, mas mesmo assim não deixa de ser constrangedor ter que expor um homem adulto se comportando feito uma criança que não entende o que lê e não sabe distinguir a essência da forma.

Essa questão de como compreender a linguagem bíblica é realmente um parâmetro útil. Por exemplo, se compararmos a maneira grega do período homérico de se referir à morte com aquela que aparece no Antigo Testamento, veremos que as duas geralmente não coincidem na forma, porém assemelham-se na essência (no ponto que mais interessa, que é a sobrevivência da alma imaterial). Só porque um hebreu usava a palavra alma com sentido de “criatura carnal que respira” e podia dizer “eu descerei ao Seol depois a morte” ao invés de “a minha alma descerá ao Seol” não significa que ele não acreditava na ida literal das almas dos falecidos para o Seol, que era considerado um distante lugar no subterrâneo. No entanto, ele achava que elas eram seres fantasmagóricos, a quem chamava de “sombras”. Homero, aliás, usou uma palavra grega equivalente para se referir às almas que vão para o interior da Terra, ao dizer que ‘a sombra de Aquiles’ foi reverenciada no Hades por seus amigos mortos, embora essa nomenclatura não fosse tão corriqueira. – Odisseia, capítulo XXIV.

O uso mais abrangente da linguagem grega entre os cristãos a partir do segundo século não significou de maneira alguma que eles estavam aderindo a conceitos da filosofia grega sobre a imortalidade da alma. Isto é um mito espalhado por quem nunca leu os escritos antigos sobre isso, tanto cristãos quanto pagãos. É o caso do autor do MB, pelo menos até agora. Já havia uma tendência entre os judeus de incorporar uma linguagem mais helênica, e os primeiros cristãos apenas seguiram esse costume. Nota-se isso ao vermos como eles descreveram ao longo dos séculos a aparição do falecido profeta Samuel:

a) Século 10 a.C.

“[Saul] disse-lhe então: ‘Que aparência tem ele?’ Ela [a necromante] respondeu: ‘É um velho que vem subindo. Está envolto num manto. Saul reconheceu então que era Samuel. Inclinou-se com a face por terra e se prostrou. Samuel disse a Saul: ‘Por que me perturbaste, fazendo-me subir?”. – 1 Samuel 28:14, 15, TEB, colchetes acrescentados.

b) Século 3 a.C.

“Então Saul morreu por causa de suas transgressões, as quais ele transgrediu contra Deus, contra a palavra do Senhor, porque ele não a manteve, porque Saul procurou o conselho de uma feiticeira, e Samuel, o profeta lhe respondeu”. – 1 Crônicas 10:13, Septuaginta Grega.

c) Século 2 a.C.

“Amado por seu Senhor, Samuel, profeta do Senhor, estabeleceu a realeza, e ungiu governantes sobre o seu povo... Mesmo depois de ter adormecido, profetizou ainda e anunciou ao rei o seu fim: do seio da terra [Samuel] elevou a voz, profetizando para apagar a iniquidade do povo”. – Eclesiástico 46: 13, 20, TEB.

d) Século 1 d.C.

“Tão logo ele [Saul] a convenceu através deste juramento que não havia motivo para temor, ele pediu que ela [a necromante] fizesse subir a alma de Samuel. Ela, mesmo sem saber quem Samuel era, o convocou do Hades”. – Antiguidades Judaicas 6:327, de Flávio Josefo, colchetes acrescentados.

e) Século 2 d.C.

“Quando chegarmos ao fim da nossa vida, poderemos pedir o mesmo de Deus, aquele que é apto para impedir que qualquer vergonhoso anjo do mal leve nossas almas. E que nossa alma sobrevive [à morte] eu já mostrei a você pelo fato de que a alma de Samuel foi chamada pela bruxa, conforme Saul solicitou”. – Diálogo com Trifão, de Justino de Roma, cap. 105, colchetes acrescentados.

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Notem que antes se dizia que Samuel voltou e depois passaram a dizer que foi a alma dele. Mas independentemente da maneira (forma) de descrever o evento a essência permanece, que é o episódio em si do retorno temporário de Samuel autorizado por Deus. Sim, o próprio livro que relata o evento diz quem foi o verdadeiro responsável por tal retorno sobrenatural:

“Jeová é Quem faz morrer e Quem preserva a vida, Quem faz descer ao Seol, e Ele faz subir”. – 1 Samuel 2:6, TNM.

A obra erudita abaixo (também usada pelo autor do MB, para “variar”...) resume a história assim:

“Quando o autor da Sabedoria de Salomão afirma que ‘as almas dos justos estão nas mãos de Deus... porque, embora aos olhos dos homens eles tenham sido punidos, têm uma esperança segura de imortalidade... porque Deus os testou e os achou dignos de serem Seus’ (3:1-5), ele pode estar usando linguagem emprestada do mundo helenístico, mas suas ideias são um legado de seus antepassados judeus”. – New Testament Theology, George Bradford Caird e L. D. Hurst, editores, 1994, pp. 243-246.

4. O LITERALISMO DE CONVENIÊNCIA

Mesmo quando determinadas passagens bíblicas usam a linguagem que o autor do MB gostaria de ver, a exemplo do versículo a seguir, ele se recusa a aceitar que uma “alma” invisível vai literalmente para um distante lugar debaixo do solo chamado Hades:

“Não deixarás a minha alma no Hades”. – Atos 2:27; Salmo 16:10, TNM.

Notem que esse versículo foi aplicado justamente aos dias em que Jesus ficaria morto, circunstância a que o próprio Jesus se referiu da seguinte maneira:

“Assim como Jonas esteve três dias e três noites no ventre do enorme peixe, assim estará também o Filho do homem três dias e três noites no coração da terra”. – Mateus 12:40, TNM.

Do mesmo jeito que ninguém poderia ver onde Jonas esteve, dentro da barriga do peixe e por sua vez na profundeza do mar, Jesus também ficaria numa região inacessível, fora da vista dos homens. Por isso que ele a chamou de “coração da terra”. Por outro lado, qualquer um com autorização de Roma poderia ver onde o corpo do falecido Jesus estava, ou seja, no sepulcro. Sendo assim, não era o corpo dele que iria para as entranhas da Terra ou profundezas dela, conforme dizem alguns versículos bíblicos. Era precisamente a alma de Jesus, como tinha sido profetizado pelo salmista! – Jó 11:7, 8; Ezequiel 26:20; Isaías 7:10, 11.

Em suas críticas ao que escrevi sobre o tema, frequentemente o “bereano” diz que chamar a atenção do leitor para a localização do Seol é um “espantalho” visto que (1) isso ‘não comprova que almas existem de forma consciente lá’, e (2) que ‘esse entendimento está errado porque não existe tal lugar invisível nas profundezas terrestres’. Isso na opinião dele, pois toda a historiografia judaico-cristã atesta com absoluta certeza que o povo de Deus sempre acreditou nisso, com variados graus de entendimento de acordo com a época. Além disso, essa é a única crença possível para explicar coerentemente o que foi mencionado sobre a morte de Jesus e sua comparação com o que aconteceu a Jonas.

Desde os tempos mais antigos os hebreus já tinham alguma noção de que algo sobrevive à morte do corpo, apesar de nessa época eles não compreenderem muito bem como se dava essa sobrevivência. A perspectiva que tinham sobre o Seol era bastante negativa. Ademais, ao passo que em alguns textos bíblicos tal lugar é associado à inconsciência e inatividade (situação experimentada também por nós durante o descanso), em outros constatamos que não é sempre assim. Logo, é uma inatividade relativa e não absoluta. O conceito que nutriam é que para o Seol vão versões fantasmagóricas do seres humanos que outrora viveram, espectros chamados no Antigo Testamento de “sombras”. Sobre isso, eu fiz a seguinte declaração no meu livro criticado pelo “bereano”:

“Além disso, ao dizer que as sombras dos mortos habitam tal lugar e que lá elas podem se reconhecer e serem reconhecidas, a Bíblia Hebraica atesta a realidade do mundo inferior. O que indica que a morte não significa a aniquilação ou extinção total de quem morreu. Para lá vão as ‘almas’ ou ‘espíritos’ dos falecidos, conforme dizemos na linguagem de hoje”.

Note agora o que foi dito pelo autor do MB ao criticar o trecho supracitado:

“Mais um espantalho ‘clássico’, junto com mais falsificações primárias do texto bíblico. Felizmente o trecho acima termina com a frase ‘conforme dizemos na linguagem de hoje’ (em vez de ‘conforme a Bíblia ensina’). Nada mais que elucubrações que não levam em consideração as declarações bíblicas simples, que podem ser compreendidas por qualquer pessoa que saiba ler. Por exemplo, o Eclesiastes 12:7 diz que ‘o espírito retorna a Deus’ (nem esse trecho, nem texto algum diz que ele ‘vai para o Seol’). E em lugar algum a Bíblia dá a entender que essas ‘sombras dos mortos’ estão ativas e conscientes, podendo mover-se, ‘reconhecer e serem reconhecidas’ etc. Antes, via de regra, ou a tradução diz ‘sombras’ ou diz ‘mortos’, sendo que estas palavras têm o mesmo significado”.

Primeiro não é desse “espírito” (singular) mencionado em Eclesiastes que eu estava falando, mas das referidas “sombras” que qualquer um hoje em dia poderia chamar de “espíritos” (plural). Mais uma falha do literalismo de conveniência do “bereano”, que por não ver as palavras “almas” ou “espíritos” no lugar de “sombras” não aceita a equivalência entre elas, embora a exegese bíblica correta aponte nessa direção. Ele exige frases mais claras e incontestes para aceitá-las como prova da realidade literal do invisível mundo subterrâneo. Mas essa exigência desaparece instantaneamente quando o autor do MB se depara com textos a exemplo desses a seguir, cuja leitura natural não passa para ele de “falsificações primárias” das Escrituras:

Nas profundezas, o Xeol se agita por causa de ti, para vir ao teu encontro; para receber-te despertou os mortos, todos os potentados da terra, fez erguerem-se dos seus tronos todos os reis das nações”. – Isaías 14:9-11, 14, 15, BJ.

(O texto acima é sobre a morte do rei de Babilônia e sua chegada ao mundo inferior).

“Os principais homens dos poderosos falarão do meio do Seol até mesmo a ele, com os seus ajudantes”. – Ezequiel 32:21, 22, TNM.

(Já essa outra passagem é sobre a morte do rei do Egito e sua chegada ao mundo subterrâneo).

“O SENHOR sabe o que acontece até mesmo no mundo dos mortos”. – Provérbios 15:11, NTLH.

“Quão poucos são os meus dias! Que Deus termine e se afaste de mim, e terei um instante de alegria, antes de partir, sem retorno, para o país de trevas e sombras, para a terra escura e opaca, de confusão e negrume, onde a própria claridade é sombra”. – Jó 10:20-22, PER.

“Quem dera que me escondesses no Seol, que me mantivesses secreto até que a tua ira recuasse, que me fixasses um limite de tempo e te lembrasses de mim! Morrendo o varão vigoroso, pode ele viver novamente? Esperarei todos os dias do meu trabalho compulsório, até vir a minha substituição. Tu chamarás e eu mesmo te responderei”. – Jó 14:13-15, TNM.

(Em inconsciência absoluta não se nutre expectativa, nem é possível atender ao chamado de alguém).

“Os mortos tremem de medo nas águas debaixo da terra”. – Jó 26:5, NTLH.

(O Seol era tido como tão profundo pelos hebreus que eles o situavam abaixo dos próprios oceanos. Veja Jó 38:16, 17).

“Havia certo homem rico que se vestia de púrpura e linho fino e seguia vivendo suntuosamente todos os dias. Mas havia um pedinte de nome Lázaro, cheio de feridas... Então aconteceu que o mendigo morreu e foi levado pelos anjos para o seio de Abraão. O homem rico também morreu e foi enterrado. E, estando em tormentos, no Hades, ele levantou os olhos e viu Abraão de longe, e Lázaro junto a ele. Então, ele gritou e disse: ‘Pai Abraão tenha piedade de mim...’. ”. – Lucas 16:19-31, NKJV.

“E se a tua mão te fizer alguma vez tropeçar, corta-a; melhor te é entrares na vida aleijado, do que ires com as duas mãos para a Geena, para o fogo inextinguível... E, se o teu olho te fizer tropeçar, lança-o fora; melhor te é entrares com um olho no reino de Deus, do que seres com os dois olhos lançado na Geena, onde o seu gusano não morre e o fogo não se extingue”. – Marcos 9:43-48, TNM.

Se dobre todo joelho dos no céu, e dos na terra, e dos debaixo do chão, e toda língua reconheça abertamente que Jesus Cristo é Senhor”. – Filipenses 2:10, 11, TNM.

(Vemos nesse texto de Filipenses três categorias de seres vivos: no céu, na Terra e no Hades).

“Quando ele [Jesus] subiu em triunfo às alturas, levou cativo muitos prisioneiros, e deu dons aos homens”. (Que significa ‘ele subiu’, senão que também havia descido às profundezas da terra?”).” – Efésios 4:8, 9, NVI.

(Com base nesse texto, os primeiros teólogos cristãos chegaram à conclusão que os justos que estavam no Hades foram retirados de lá e levados para o céu depois da ressurreição de Jesus).

“Quem descerá ao abismo? (isto é, para fazer Cristo subir dentre os mortos)”. – Romanos 10:7, NVI, veja também Jó 38:16, 17.

“Morto na carne, [Jesus] foi vivificado no espírito, no qual foi também pregar aos espíritos em prisão, a saber, aos que foram incrédulos outrora, nos dias de Noé, quando Deus, em sua longanimidade, contemporizava com eles, enquanto Noé construía a arca, na qual poucas pessoas, isto é, oito, foram salvas por meio da água”. – 1 Pedro 3:18-20, BJ.

“Visto que não continuais a correr com eles [os pecadores] neste proceder para o mesmo antro vil de devassidão, ficam intrigados e falam de vós de modo ultrajante. Estas pessoas prestarão contas àquele que está pronto para julgar os viventes e os mortos. De fato, com este objetivo se declararam as boas novas também aos mortos, para que fossem julgados quanto à carne, do ponto de vista dos homens, mas vivessem quanto ao espírito, do ponto de vista de Deus”. – 1 Pedro 4:4- 6, TNM.

Realmente, não precisa ser muito esperto para entender determinados versículos bíblicos. Basta ser alfabetizado. E como se nota, a Bíblia não facilita muito a vida do autor do site Mentes Bereanas... Mas mesmo assim, conforme ele faz com os eruditos que cita, diz que está do lado dela e que é seu fiel defensor.

O mesmo problema ocorre naquelas duas passagens que contam sobre os aparecimentos dos falecidos profetas Samuel e Moisés para seres humanos. No primeiro caso por intermédio de uma necromante. No segundo diretamente, numa cena em que o visitante dialogou sobre a iminente morte de Jesus e foi visto pelos apóstolos, que não duvidaram que estavam mesmo diante de alguém falecido, a ponto de oferecerem abrigo a ele. A naturalidade que os visitados se comportaram nesses episódios demonstra, ao menos para quem tem o mínimo de razoabilidade e ausência de preconceitos, que os antigos judeus jamais nutriram a crença defendida pelo autor do MB. No entanto, tais relatos claros e diretos não são suficientes para ele abandonar o indefensável. Ao invés disso, diz coisas desse tipo:

“Lamentável é a postura de certos indivíduos que estão muito bem a par destas duas coisas [a natureza humana segundo a Bíblia e a influência do platonismo no antigo cristianismo], e ficam tentando obstinadamente negá-las (ou atenuá-las)... Nenhum apologista da ‘imortalidade da alma’ até o momento conseguiu sequer ‘arranhar’ a evidência bíblica da inconsciência e inatividade dos mortos, o que dirá anulá-la. E não há qualquer dúvida de que isto jamais será conseguido, não importa quantas tentativas se façam neste sentido”.

O que vimos nesta seção reforça o que foi visto na primeira parte, sobre a metodologia do autoengano.

5. DISTORÇÕES DELIBERADAS, LEITURA DEFICIENTE OU LIMITAÇÃO COGNITIVA?

Para compreender um pouco melhor como funciona o senso “analítico” do autor do MB, uma rápida olhada na maneira dele entender o que eu mesmo escrevo atesta o grau de qualidade das “análises” que ele faz sobre o que os eruditos escreveram. Esse é um teste interessante, pois eu sou o autor dos trechos mencionados e sei perfeitamente o que eu disse ou quis dizer, além das minhas motivações e objetivos. Não há risco algum de má interpretação do que eu mesmo escrevi.

Para começar, no meu livro eu disse que para entender corretamente o que os primitivos cristãos acreditavam com base na literatura patrística era necessário ler diretamente tais obras antigas, pois nem sempre os que fazem comentários sobre elas sabem realmente do que estão falando, pois não as leram por completo ou então só as conhecem mediante breves citações de outros autores. O exemplo que mais me chamou atenção nesse aspecto foi uma obra adventista que apresenta conclusões errôneas sobre alguns autores patrísticos, mas mesmo assim o autor do MB a traduziu e publicou no site dele sem nenhuma ressalva. Já que ele não leu realmente tais fontes primitivas, ele se vale de um texto com informações questionáveis para ao menos dar impressão que está por dentro do assunto.

Em virtude da referida deficiência, eu indiquei a coletânea de textos patrísticos que eu mesmo selecionei da leitura que fiz nos últimos anos desse material. Na verdade, li, traduzi e publiquei, pois os livros estavam em inglês. Afirmei que ler esses trechos no meu site seria muito melhor do que ler o que alguns escritores comentam sobre determinados autores patrísticos. Mas não é porque essa coletânea teria qualidade superior a de outros trabalhos por ser de minha autoria, muito menos os de escritores eruditos. Isso jamais me passou pela cabeça. Eu não sou o autor dos textos apresentados, embora eu tenha escrito uma seção introdutória para contextualizar o que vem em seguida. No entanto, tal vantagem a que fiz alusão não se refere a essa parte inicial, mas aos textos de diversos escritores patrísticos que apresentei divididos por temas. No entanto, o autor do MB torceu completamente o que eu disse e interpretou as minhas palavras da seguinte maneira:

“O que está dito no quadro acima, sem floreios: ‘Meu texto sobre os escritos dos Pais da Igreja é ‘incomparavelmente melhor’ e ‘muito mais esclarecedor’ do que esse de Ackermann (e qualquer outra obra de referência que exista sobre o assunto!), pois nenhum pesquisador sério do mundo escreveu sobre isso mais correta e detalhadamente do que eu!... Sim, conforme já foi dito e bem enfatizado (por mim!), como eu sou um autor de mais qualidade do que Ackermann e conheço a biblioteca patrística muito melhor do que ele - e do que qualquer erudito do mundo! - é por isso que nenhum deles fazia ideia dessas coisas que eu estou dizendo’.”

Se isso não fosse algo sério daria até para rir. O que, afinal, está acontecendo com o “bereano” que leva sempre o que eu digo para o lado errado e supõe coisas que nunca pensei? E são diversos exemplos. Estou mencionando apenas um deles. É como se a mente dele estivesse carcomida de preconceitos e pronta para me criticar acidamente. Não é à toa que no caso dos outros textos (bíblicos, patrísticos e eruditos) em vários momentos ele não consegue seguir uma linha coerente de raciocínio, ainda que os argumentos sejam bem redigidos. Isso é realmente preocupante!

Vejam abaixo mais alguns exemplos. O trecho em negrito itálico é o que escrevi no meu livro e o que aparece em seguida é o comentário do “bereano”. E após isso as minhas observações sobre o que ele erroneamente concluiu.

Eles [os primeiros cristãos] achavam que a Geena é um lugar real no qual os perversos serão lançados (futuro) depois de terem sido ressuscitados.

“Não, os primeiros cristãos não achavam isso. Eles sabiam, é claro, que a Geena, no tempo de Cristo era um lugar real, fora de Jerusalém, mas jamais algum cristão afirmou que é neste lugar específico que os perversos serão lançados depois da ressurreição de julgamento. O lugar deixou de existir, mas Jesus o usou em sua pregação como símbolo de destruição eterna (o que é diferente de tormento eterno, convenhamos)”. – Autor do MB.

Mas não era disso que eu estava falando! A Geena a que me referi é aquela cujo fogo não se apagará jamais, e que é uma variação do Hades bíblico, mencionada por Jesus e todos os cristãos desde então, mesmo depois que aquele monturo em estado constante de incineração deixou de existir em Jerusalém. A geena física serviu apenas de modelo para a descrição da Geena espiritual. Em parte alguma do Novo Testamento é dito que Jesus usou o referido local de descartes como “símbolo” da aniquilação eterna. Esta é uma conclusão completamente espúria, resultante de ideias aniquilacionistas não presentes na Bíblia. Ao invés disso, o que Jesus fez foi apenas nomear a região para onde os maus seriam enviados com a mesma palavra usada para o aterro de lixo da cidade, pois viu similaridades entre as duas situações. Quando Jesus e outros naquela época se referiam ao Hades ou à Geena, a maneira deles se expressarem demonstra claramente que eles tinham em mente um lugar real de punição. Por isso o erudito Nelson Darby, por exemplo, acreditava na existência literal do mundo inferior onde pessoas são punidas com sofrimento, da mesma maneira que todos os autores patrísticos que abordaram esse tema.

Dizer que Geena é a representação simbólica da inexistência significaria que tal situação já aconteceu, porque os que Deus decidisse não ressuscitar já estariam no estado em que deveriam estar. Certamente um presente para os extremamente maus, pois, independente do que fizeram, estariam para sempre em uma ‘doce’ inexistência.

“Como já enfatizado, a Geena não é ‘representação simbólica da inexistência’ e sim do ‘aniquilamento’. E este só acontece por decisão divina. Só Deus é quem decide quem irá para a Geena, sendo aniquilado, de modo que não cabe a homem algum especular qual será a decisão dele em cada caso. Ademais, é impróprio algum homem questionar a justeza dos procedimentos de Deus, querendo impor a Ele os seus próprios conceitos de retribuição pela maldade. A tortura de criminosos é algo rejeitado universalmente até mesmo na justiça humana. É, portanto um absurdo completo imaginar que um Deus de amor teria idealizado um lugar de tortura eterna indescritível para punir os maus. Tal conceito não existe na Palavra de Deus; isso foi inventado pelos homens”. – Autor do MB.

Conforme já comentado, não existe efetivamente nenhuma diferença entre o aniquilamento após o Juízo e o estado imediato depois da morte de acordo com o aniquilacionismo materialista. É meramente uma questão de Deus decretar ou não que o sujeito ficará para sempre no estado em que já está. E até agora o “bereano” não se manifestou sobre esse “pormenor” altamente inconveniente de sua argumentação, preferindo fugir do assunto pela tangente, depois de muitos rodeios...

Além do mais, em nenhum momento eu toquei nessas questões relacionadas à decisão de Deus e nem tampouco se o tormento eterno dos maus é justo ou não. O que seria até irrelevante discutir, pois se Deus decide algo assim não importa nossa visão particular. Por isso recorrer ao que a sociedade moderna pode pensar a respeito é completamente inaplicável na exegese desse ponto. (O autor do MB costuma mencionar muito essa palavra – exegese –, mas parece que até agora ele ainda não entendeu muito bem o que ela significa). E o mais importante para o que interessa saber aqui é que, independentemente da opinião que se tenha hoje sobre tal lugar de tormento, é fato incontestável que os cristãos e judeus primitivos sempre acreditaram que ele existe literalmente, mesmo sendo invisível e inacessível para quem ainda não morreu. A parábola do rico e Lázaro é um dos exemplos dentro da própria Bíblia que atestam isso, conforme bem lembrou Nelson Darby. Parábolas usam cenários e elementos reais, mesmo que as histórias sejam fictícias. A do rico e Lázaro não seria a primeira a fugir desse padrão.

“A crença na ressurreição do corpo é geralmente associada com o cristianismo, por causa da doutrina da ressurreição de Cristo, mas também está associada ao judaísmo posterior... O antigo pensamento religioso do Oriente Médio forneceu um pano de fundo para a crença na ressurreição de um ser divino (por exemplo, o deus babilônico da vegetação Tamuz), mas a crença na ressurreição pessoal de seres humanos era desconhecida. No pensamento religioso greco-romano havia uma crença na imortalidade da alma, mas não na ressurreição do corpo. A ressurreição simbólica, ou renascimento do espírito, ocorreu nas religiões de mistério helenístico, como a religião da deusa Ísis, mas a ressurreição corpórea pós-morte não era reconhecida”. – Edição digital, 2005, verbete “Ressurreição”.

O trecho acima nada diz de importante para o cerne do que está sendo discutido aqui.

“Esse trecho da Enciclopédia toca precisamente no ‘cerne do que está sendo discutido aqui’. O trecho ‘nada diz de importante’ é em favor do mito da ‘imortalidade da alma’! O erudito afirma que a crença na ‘ressurreição pessoal dos seres humanos’ é exclusivamente judaico-cristã, que essa ideia era ‘desconhecida’ entre todas as demais religiões antigas. Essas outras religiões é que advogavam a ‘imortalidade da alma’, ou algum tipo de ‘ressurreição simbólica’. Isso é o contrário da teoria de que o conceito de ressurreição corpórea foi alguma ‘revelação posterior’ aos cristãos, que seria ‘desconhecida’ dos hebreus dos tempos bíblicos!” – Autor do MB.

O ponto focal da discussão (cerne) não é a noção judaico-cristã sobre a ressurreição do corpo físico. Isto está bem estabelecido e ninguém questiona se houve tal crença entre judeus e cristãos antigos. Mas o que realmente interessa saber aqui é se, de acordo com a Bíblia e o antigo povo de Deus, o homem possui uma parte imaterial que podemos chamar de “alma” que2 escapa da morte física e continua viva. O trecho citado não afirma que tal expectativa de sobrevivência imediata da alma inexistia na igreja primitiva. Apenas diz que com certeza a ressurreição física não foi ensinada na filosofia grega, pois esta enfatizava apenas a imortalidade da alma (ensino que notoriamente possuía em seu arcabouço peculiaridades que iam muito além da simples conclusão de que a alma do homem sobrevive à morte). Enquanto o autor do MB não ler as fontes primárias sobre esse assunto ele continuará assim, andando em círculos.

Quando Paulo dizia ‘eu deixarei este corpo para ir estar com Cristo’ era exatamente isto o que ele estava querendo dizer.

“Seria, se o apóstolo Paulo tivesse dito isso alguma vez. Mas ele nunca disse essas palavras, como qualquer leitor pode verificar no trecho de Filipenses 1:20-26”. – Autor do MB.

É mesmo? Vejamos novamente então o que diz o texto:

“Sinto-me num dilema: meu desejo é partir [pela morte] e ir estar com Cristo, pois isso me é muito melhor, mas o permanecer na carne é mais necessário por vossa causa”. – Filipenses 1:21-23, BJ.

Será que a partida que ocorre depois da morte não significa deixar o corpo físico para trás? E que esse corpo é a “carne” mencionada por Paulo nesse texto? Talvez seja de ajuda reler o que ele também disse aos coríntios sobre a partida para onde Jesus Cristo vive:

“Mas, temos boa coragem e bem nos agradamos antes de ficar ausentes do corpo [depois da morte] e de fazer o nosso lar com o Senhor”. – 2 Coríntios 5:8, 9, TNM.

É preciso dizer mais alguma coisa?...

Acredito que os exemplos acima são suficientes para visualizar a maneira equivocada que o “bereano” costuma ler o que eu escrevo, mesmo havendo vários outros pontos que eu poderia comentar para deixar ainda mais patente a existência desse problema. É o caso, por exemplo, das afirmações que ele fez de que eu teria selecionado propositalmente edições de anos diferentes da Enciclopédia Americana com o intuito de enganar os leitores. Eu jamais concebi tal coisa! Eu simplesmente consultei os verbetes das edições que encontrei de pronto na Internet e fui selecionando o que achei mais pertinente. Tudo o que o “bereano” comentou sobre essa suposta manipulação de fontes não passa de coincidências e produto da imaginação dele.

E no que diz respeito aos eruditos, a situação não é muito diferente. Na maioria dos casos, o autor do MB pensa que viu uma coisa nas obras que cita, porém elas não estão afirmando exatamente o que ele precisa para dar suporte à teoria aniquilacionista. E em vários casos os autores se posicionam fortemente contra os conceitos que o “bereano” sustenta. Mas para descobrir isso é preciso ler outros trechos não mencionados das obras citadas ou então outros escritos dos mesmos autores.

Ou seja, basta uma investigação mais abrangente para atestar essa realidade. Nelson Darby, Robert Capon e John Gibson, já citados, são apenas alguns exemplos. Há dezenas de outras constatações desse tipo no meu livro, dentro do capítulo chamado “O que o autor ‘bereano’ pensou que viu nos livros que citou”. Por esse motivo, não há razão para discorrer novamente sobre isso aqui. As explicações lá contidas são muito claras e o “bereano” só não as enxerga porque não quer mesmo, visto que caiu vítima de um processo de autoengano que o mantém sempre na direção errada. Por isso resolveu agora tentar repelir os fatos que apresentei no referido capítulo.

Visto que a metodologia, motivações e distorções seguem sempre o mesmo padrão, e no final não provam o que ele gostaria, nem perderei o meu tempo aqui expondo detalhadamente todos os novos erros cometidos pelo “bereano”. Qualquer um de posse das informações apresentadas neste artigo poderá fazer isso sem grandes dificuldades. De qualquer maneira, escrevi na seção seguinte sobre três dessas novas tentativas de refutação, referente ao uso que ele fez de três obras de referência, uma católica, uma judaica e uma protestante (escrita por anglicanos, batistas, metodistas e outros).

6. SOBRE O USO INADEQUADO DE ENCICLOPÉDIAS BÍBLICAS

Não comentarei a seguir todos os argumentos apresentados pelo autor do MB, pois, conforme verão, não é necessário. Farei isso apenas com relação à terceira obra, porém na seção seguinte.

a) Enciclopédia Católica

Antes de adentrar no conteúdo em si da Enciclopédia Católica que foi analisado, convém fazer uma reflexão inicial. Será que alguém consegue imaginar que um compêndio escrito por eruditos católicos poderia defender o aniquilacionismo e negar o conceito de que o homem possui uma alma imaterial que sobrevive à morte?

Para quem conhece as doutrinas do catolicismo sabe que isso é praticamente impossível, pois as crenças católicas estão bem estabelecidas no sentido oposto, e certamente nenhum católico concluirá que sua liderança está ensinando mentiras de maneira proposital, as quais estariam sendo expostas pela literatura que os próprios líderes publicam! Mas o autor do MB chegará inevitavelmente a tal conclusão quando admitir a realidade óbvia de que os referidos teólogos católicos são “imortalistas” e não “condicionalistas”, i.e., defensores do aniquilacionismo. (Isso se ele já não pensa isso e sonega essa informação para manter o cenário artificial de aparente concordância com tais autores). O mesmo ele passará a pensar da maioria dos estudiosos que citou à margem da intenção autoral deles. Ao ler, por exemplo, o que Joseph Ratzinger (Papa Bento XVI) disse sobre esse assunto em uma citação que transcrevi em outra ocasião, percebe-se que é totalmente impraticável uma obra católica servir de apoio para a crença do “bereano”. – Ver comentário à obra nº 5 do capítulo 5 do meu livro.

Pois bem, ao comentar a evidência que eu apresentei de que a Enciclopédia Católica não apoia o aniquilacionismo e que, na verdade, ela ensina que o homem possui uma alma que permanece viva depois da morte do corpo, o autor do MB disse o que está transcrito abaixo:

A seguinte foi a “técnica” usada no artigo imortalista para tentar anular o que disse esta obra erudita: 

- apresentou-se ao leitor uma linda cópia truncada das citações de dois verbetes da Enciclopédia que constam no Mentes Bereanas.

- enquanto isso, os verbetes publicados – na íntegra – no Mentes Bereanas foram chamados de “citações completamente fora do contexto autoral da obra” [?], 

- daí, tomando como base os verbetes truncados, o artigo apresentou aos leitores o seguinte veredito:

[O primeiro verbete] é apenas para insinuar [?] que a crença de que existe uma alma que sobrevive à morte do corpo entrou na igreja devido à influência da filosofia grega, quando nem de longe este é o caso, conforme você pode constatar lendo [um texto de minha autoria]. Conforme verá [nesse texto de minha autoria], a influência grega se deu em outros pormenores. O mesmo [a ‘insinuação’?] se aplica [ao segundo verbete]. Continuar a alma viva depois da morte não significa que ela é imortal em sentido platônico. Ao ler o texto [de minha autoria] indicado [por mim!] você entenderá o que [eu] estou dizendo.

Ou seja, até esse conteúdo truncado dos verbetes foi dispensado como se não valesse nada!  Em vez disso, apresenta-se ao leitor definições e conclusões prévias – que não aparecem na Enciclopédia, e nem em obra erudita alguma. E o que o leitor precisaria fazer para “constatar” e “entender” essas coisas? A mesma coisa: Deve deixar para lá o artigo da Enciclopédia Católica e, em vez disso, ler outra matéria que não tem nada que ver com ela! 

. . . .

São cabíveis as seguintes perguntas: Devemos entender, então, que encaminhar os leitores para outras matérias diferentes da obra erudita é que significa fazer citações “dentro do contexto autoral”? Pode-se imaginar alguém abordando uma fonte credenciada dessa maneira “erudita” e demonstrando todo esse “respeito” à inteligência de seus leitores, sem sentir a mínima vergonha?

Primeiramente, vejamos qual é essa “linda cópia truncada” que eu teria feito em minha citação:

“A psyche em Mat. 10:28, ‘E não temais os que matam o corpo e não podem matar a alma [psyche]; temei antes aquele que pode fazer perecer no inferno a alma e o corpo’, significa uma vida que existe separadamente do corpo”.

Como se nota, não há nenhum truncamento e o ponto que interessa a enciclopédia apresenta de maneira inequívoca, qual seja: o homem possui uma alma que sobrevive de maneira separada do corpo físico e foi a essa alma que Jesus se referiu em Mateus 10:28, quando disse que os homens podem matar o corpo, mas contra a alma eles nada podem fazer. Deste modo, a discussão já poderia ser encerrada aqui, pois o referido trecho desmonta completamente as pretensões do “bereano” ao citar essa referência católica.

Aparentemente, ele não sabe o que significa truncar uma citação, ou então age de má-fé ao fazer essa acusação. Ele disse isso porque na transcrição que fiz, onde está o trecho acima, eu omiti algumas partes do texto usando o recurso das reticências. Mas o único objetivo com isso foi deixar a porção citada mais curta para não cansar o leitor, se é que a essa altura isso é possível, devido ao tamanho que ficou essa discussão. Em suma, não foi para omitir algum ponto importante que contradiria o meu argumento. Mais uma vez o autor do MB enxerga maldade onde ela não existe.

De qualquer maneira, discorramos mais um pouco sobre o que foi dito. As afirmações ofensivas que o “bereano” fez em relação ao texto de minha autoria que recomendei indicam pelo menos duas deficiências da parte dele:

1) Ele conhece muito pouco a real influência da filosofia grega sobre o Cristianismo. O que é normal, visto que não leu as fontes primárias de informação, que são os escritos patrísticos e os da filosofia grega. Não fazem parte dessa biblioteca as enciclopédias modernas, cujos autores antes de escreverem seus verbetes precisaram primeiro ler e estudar o que tais obras antigas dizem.

2) Ele não leu a matéria sugerida, pois se tivesse lido saberia que há sim obras eruditas que mencionam o que abordei no meu comentário. A não ser, é claro, que esteja sendo apenas desonesto.

Todo o “problema” apresentado pelo “bereano” se resume na admissão da Enciclopédia Católica de que o conceito de alma sofreu influência do platonismo e vários escritores cristãos antigos eram platonistas, geralmente antes de suas conversões ao Cristianismo (detalhe que o autor do MB nunca destaca). Mas para saber que tipo de influência foi essa é preciso ler muito mais do que está em obras de referência. Se no verbete citado a enciclopédia não adentrou em todos os detalhes pertinentes a essa história da influência grega, não é demérito algum encaminhar o leitor para um texto que faz isso, o qual possui todo embasamento necessário para corroborar o argumento sustentado.

Dentre as informações apresentadas, e que foram ignoradas pelo autor do MB, está o fato dos mesmíssimos cristãos “platonistas” condenarem frequentemente em seus escritos determinados ensinos advindos do platonismo, a exemplo do desprezo que os seguidores de Platão tinham pela esperança da ressurreição do corpo. Todos esses aspectos a que o “bereano” faz pouco caso são de fundamental importância para compreender essa questão. No entanto, ele prefere desclassificar esse e outros esclarecimentos e chamá-los de “asneiras”, ‘desrespeito à inteligência dos leitores’, ‘atitudes dignas de vergonha’ ‘perversões infames do que a Bíblia diz’ etc., sem, no entanto, apontar de maneira convincente as razões que levariam a tais conclusões adversas.

No meu comentário a respeito do que o “bereano” pensou que viu na Enciclopédia Católica, tendo como base Lucas 16:19-31 e 23:43 eu disse que depois da morte a alma pode ser levada para o céu ou para as chamas do Hades. Novamente o autor do MB protestou porque o verbete não trata dessas passagens e lembrá-las naquele momento seria trazer um elemento estranho para a análise (neste caso, veremos mais adiante o que outros verbetes dessa enciclopédia afirmaram sobre esses outros pontos). Ao invés disso, citou o seguinte trecho que supostamente anularia o que eu disse:

“Errado. Além de não ter discutido a parábola do Rico e Lázaro, o erudito ainda disse isto no artigo: ‘Na morte, a nepeš [alma] vai para o Seol [Hades], um lugar de uma existência insensível, sombria’.”.

Para quem está por dentro do assunto, sabe que a citação acima serve para demonstrar precisamente o contrário do pretendido pelo autor do MB, pois faz referência à antiga crença hebraica de criaturas fantasmagóricas chamadas de “sombras” que experimentam uma existência triste, sonolenta e sem sentido no Seol. Isto por si só atesta que os hebreus não acreditavam na inexistência completa depois da morte, pois achavam que versões enfraquecidas (e invisíveis) dos vivos continuavam perambulando no mundo dos mortos, que era tido como estando nas profundezas da Terra e não em um cemitério. Ou seja, tais seres eram o que chamaríamos hoje de “fantasmas” ou “almas penadas”. Podiam não ter o vigor e a alegria dos vivos de carne e osso, porém eram provas incontestes de algum tipo de sobrevivência depois da morte.

E com respeito ao texto de Mateus 10:28? O que fez o autor do MB para se sair de uma afirmação tão clara da Enciclopédia Católica a respeito da sobrevivência da alma imaterial? Vejam abaixo:

“Sim. Esta ‘vida que existe separadamente do corpo’ está aos cuidados de Deus entre o momento da morte e o da ressurreição. Nem Jesus, nem escritor bíblico algum jamais disse que a morte dum fiel equivale à sua ‘aniquilação’. É sempre bom lembrar também que o termo correto neste texto de Mateus 10:28 é ‘geena’, não ‘inferno’. E, como o texto diz, Deus faz a pessoa ‘perecer’ na Geena – e não ser atormentada eternamente no ‘fogo do inferno’. É só neste momento, após a decisão divina, que se pode dizer corretamente que o indivíduo foi aniquilado. Antes disso não! (Há quem tente arduamente obscurecer este raciocínio com o fim de achar ‘contradições’ no ensino bíblico, com o fim de favorecer suas teorias pessoais, mas todas essas tentativas sempre fracassam.)”.

Percebam que coisas “interessantes” podemos destacar dessas “explicações”:

1) Tais justificativas não foram apresentadas pela própria enciclopédia, e não passam de uma interpretação forçada do autor do MB para ajustar o que os eruditos disseram ao que ele acredita. Por exemplo, em momento algum a Bíblia ou a Enciclopédia Católica afirmam que pessoas serão aniquiladas e ficarão na inexistência eterna.

2) Os mesmos eruditos competentes, a quem o “bereano” elogia sempre que pode, de acordo com ele cometem um erro de tradução por não utilizarem a palavra “Geena” ao invés de inferno. O motivo dessa escolha da Enciclopédia Católica será esclarecido mais adiante.

3) De fato, nem Jesus e seus seguidores disseram que os fiéis são aniquilados depois da morte. Aliás, segundo eles, nem os infiéis o são! O problema não é o que disseram esses homens antigos, mas sim o que o autor do MB diz, pois ele sim acredita na aniquilação imediata depois da morte. Só não se refere a ela dessa maneira porque opta por um palavreado que esconde a real essência do que defende, que é o materialismo adaptado à linguagem bíblica, cuja “válvula de escape” é o argumento de que Deus pode recriar os que estariam nesse estado de inexistência total.

Pelo que foi acima exposto, quem realmente está apresentando ‘raciocínios obscuros a fim de favorecer teorias pessoais’?

E para não ficar nenhuma dúvida que a Enciclopédia Católica jamais poderia ser usada para apoiar o aniquilacionismo disfarçado do autor do MB, leia o que ela diz nos três verbetes a seguir, extraídos da versão on line da enciclopédia (os negritos são meus):

a) Inferno

“O latim infernus (inferum, inferi), o grego Hades e o hebraico sheol correspondem à palavra inferno. Infernus é derivado da raiz em; daí designa o inferno como um lugar dentro e abaixo da terra. Haides, formado a partir da combinação da raiz ‘ver’ e um ‘local particular’, denota um lugar invisível, oculto e escuro. Assim, é semelhante ao termo inferno”.

. . .

“No Antigo Testamento (Septuaginta, hades; Vulgata, infernus) o sheol é usado em geral para designar o reino dos mortos, tanto para os bons (Gênesis 37:35) quanto para os maus (Números 16:30); o que significa o inferno no sentido estrito da palavra, assim como o limbo dos Patriarcas. Mas, visto que o limbo dos Patriarcas acabou no tempo da Ascensão de Cristo, o hades (Vulgata, infernus) no Novo Testamento passou a sempre designar o inferno como o lugar dos condenados. Desde a Ascensão de Cristo, os justos não mais descem ao mundo inferior, mas habitam no céu (2 Coríntios 5:1). No entanto, no Novo Testamento, o termo Gehenna é usado mais freqüentemente no lugar de hades, sendo o nome do local destinado à punição dos condenados”.

. . .

“A existência do inferno é provada em primeiro lugar na Bíblia. Onde quer que Cristo e os Apóstolos falam do inferno, eles pressupõem o conhecimento de sua existência (Mateus 5:29; 8:12; 10:28; 13:42; 25:41, 46; 2 Tessalonicenses 1:8; Apocalipse 21:8, etc.). Um desenvolvimento muito completo do argumento bíblico, especialmente em relação ao Antigo Testamento, pode ser encontrado em ‘Die christliche Eschatologie in den Stadien ihrer Offenbarung im Alten und Neuen Testament’, de Atzberger, Friburgo, 1890. Também os Pais da Igreja, desde os tempos mais primitivos, são unânimes em ensinar que os ímpios serão punidos após a morte. E para provar sua doutrina eles apelam tanto para a Escritura quanto para a razão (cf. Inácio, ‘Ad Eph.’, V, 16; ‘Martyrium s. Polycarpi’, ii, n, 3; xi, n.2; Justino, ‘Apol.’, II, n. 8 em P.G., VI, 458; Atenágoras, ‘De ressurr. Mort.’, c. xix, em P.G., VI, 1011; Irineu, Contra as Heresias V. 27.2; Tertuliano, ‘Adv Marc.’, I, cxxvi, em P.L., IV, 277). Para citações desse ensino patrístico, ver Atzberger, ‘Gesh. der christl. Eschatologie innerhalb der vornicanischen Zeit’ (Freiburg, 1896); Petavius, ‘De Angelis’, III, iv sqq”.

b) O Seio de Abraão

“Na Bíblia Sagrada, a expressão ‘o seio de Abraão’ é encontrada apenas em dois versículos do Evangelho de São Lucas (16:22-23). Ocorre na parábola do Homem Rico e Lázaro, cuja imagem é claramente extraída das representações populares do invisível mundo dos mortos, que eram correntes no tempo de Nosso Senhor. De acordo com as concepções judaicas daquele momento, as almas dos mortos eram reunidas em um lugar de permanência geral, o Sheol da literatura do Antigo Testamento, e o Hades dos escritos do Novo Testamento (cf. Lc 16:22; em grego 16:23). Havia, porém, uma separação local entre eles, de acordo com suas ações durante sua vida mortal. No mundo invisível dos mortos, as almas dos justos ocupavam uma residência ou compartimento próprio, distintamente separado por uma parede ou um abismo da morada ou compartimento ao qual as almas dos iníquos eram consignadas.

“Este último era um lugar de tormentos geralmente chamado de Gehenna (cf. Mateus 5:29, 30; 18:9; Marcos 9:42 sqq. na Vulgata Latina) - o outro, um lugar de felicidade e segurança conhecido pelos nomes de ‘Paraíso’ (cf. Lucas 23:43) e ‘o seio de Abraão’ (Lucas 16:22-23). Estando em harmonia com essas concepções judaicas o Nosso Senhor descreveu o terrível destino do egoísta Homem Rico em contraste com a gloriosa recompensa do paciente Lázaro. Na vida seguinte o rico Epulão viu-se na Gehenna, condenado aos tormentos mais excruciantes, enquanto Lázaro foi levado pelos anjos para ‘o seio de Abraão’, onde os justos que morreram compartilhavam o repouso e a felicidade de Abraão, ‘o pai dos fiéis’. Embora os comentaristas geralmente concordem sobre o significado da expressão figurativa ‘o seio de Abraão’, que é a bem-aventurada morada das almas justas após a morte, eles estão em desacordo com relação à maneira pela qual a frase em si se originou”.

c) Paraíso

“A primeira menção da palavra [paraíso] ocorre [no Novo Testamento] em Lucas 23:43, onde Jesus na cruz diz ao ladrão arrependido: ‘Em verdade te digo que hoje estarás comigo no paraíso’. De acordo com a interpretação prevalecente dos teólogos e comentaristas católicos, o paraíso neste caso é usado como sinônimo do céu dos abençoados ao qual o ladrão iria acompanhar o Salvador, juntamente com as almas dos justos da Antiga Lei que aguardavam a vinda do Redentor. Em II Coríntios (xii, 4), São Paulo descreve um de seus êxtases e diz aos seus leitores que ele foi ‘arrebatado ao paraíso’. Aqui o termo parece indicar claramente o estado celestial ou a morada dos bem-aventurados, implicando possivelmente um vislumbre da visão beatífica.

“De qualquer forma, a referência não pode ser do paraíso terrestre, especialmente quando consideramos a expressão paralela no verso 2, onde, ao mencionar uma experiência semelhante, ele diz que foi ‘arrebatado até o terceiro céu’. A terceira e última menção do paraíso no Novo Testamento ocorre em Apocalipse (2:7), onde São João, recebendo em visão uma mensagem Divina para o ‘anjo da igreja de Éfeso’, ouve estas palavras: ‘Para aquele que vencer, eu vou dar de comer a árvore da vida, que está no paraíso do meu Deus’. Nesta passagem, a palavra é usada para designar o reino celestial, embora a imagem seja emprestada da descrição do Jardim do Éden primitivo no Livro de Gênesis”.

b) Enciclopédia Judaica

Abordemos agora como a Enciclopédia Judaica foi utilizada pelo autor do MB. Conforme dito, quando eu apresento somente alguns trechos de determinados verbetes, é apenas para simplificar a exposição e não deixá-la tão longa. Assim, o ponto que interessa é logo exposto. No entanto, tem sido um argumento recorrente do “bereano” dizer que eu escamoteio os textos que cito. É o que ele disse também ao comentar sobre o que mencionei da Enciclopédia Judaica. Afirmou que apresentei “citações truncadas” e com “sequência embaralhada” (não fiz nada disso) que não permitem avaliar ‘a imagem correta do raciocínio do autor’. Novamente, já poderíamos encerrar o assunto por aqui mesmo ao ler a seguinte afirmação da enciclopédia, no verbete “ressurreição” (p. 382):

Tal como todos os povos antigos, os hebreus primitivos acreditavam que os mortos descem para o mundo subterrâneo e vivem ali uma existência pálida”. (Logo, é irrelevante se os hebreus chamavam os habitantes desse lugar de “almas”, “sombras” ou qualquer outro nome).

Ou então esta, que está no mesmo verbete:

“Um conceito diferente, que tornava uma ressurreição desnecessária, foi mantido pelos autores do Sal. xlix [vv. 13-15]. e lxxiii [vv. 23-25]” (textos que mencionam a esperança de quem morre não ir para o Seol, mas para a presença de Deus).

Mesmo diante de afirmações tão claras, o “bereano” diz que a intenção do erudito não foi dizer o que está dito aí nesses dois trechos, pois pensar assim seria uma “barbaridade”. Por isso, em uma ginástica mental desnecessária, asseverou que o autor não disse “nada parecido com ‘os mortos vivem no Seol’ ”(!), mesmo havendo no verbete uma óbvia alusão à conhecida concepção hebraica de que o mundo inferior é uma terra de sonolentos seres fantasmagóricos (“sombras”), que acordam quando querem e podem até recepcionar os que vão morrendo (Isaías 14:9-15; Ezequiel 32:21, 22). Ignorando esse cenário de inatividade relativa e não absoluta, que foi comentado na seção 4, o “bereano” se apega a uma frase dita pelo erudito de que tal existência sombria é “sem vida e inconsciente”, como se isso não significasse apenas que a ‘existência pálida dos que vivem no Seol’ é tão letárgica e desagradável que não pode ser considerada uma verdadeira vida, semelhante a quando alguém no nosso mundo passa por sofrimentos constantes e diz: “Isso não é vida”.

Notem que também foi informado na enciclopédia que esse ponto de vista sombrio da morada dos mortos era compartilhado com outros povos antigos. Para confirmar isso, vejamos então o que alguns deles disseram sobre o mundo inferior e seus habitantes:

- Mesopotâmia: “Ele [o deus Nergal] libertou [o falecido] Enkidu para falar mais uma vez com seus parentes e mostrou a Gilgamesh como descer a meio caminho do mundo dos mortos, que fica nas entranhas da terra. E a sombra de Enkidu levantou-se lentamente em direção dos vivos e de seus irmãos. Fraca e emocionada tentou abraçá-los, tentou falar, tentou e falhou ao tentar tudo, mas soluçou. ‘Fale comigo, meu irmão’, sussurrou Gilgamesh. ‘Conte-me da morte e onde você está’. ‘Não estou disposto para falar da morte’, respondeu Enkidu numa vagarosa resposta. ‘Mas se você desejar sentar um pouco, eu descreverei o lugar onde estou’.” – Épico de Gilgamesh, Tabuleta XII.

- Egito: “[Os que não vão para o paraíso depois da morte estão em um mundo que] é uma terra de sono e densas sombras, um lugar onde os habitantes uma vez instalados, cochilam em suas formas mumificadas, nunca mais acordarão para ver seus irmãos; nunca mais reconhecerão seus pais e suas mães, esqueceram em seus corações das suas esposas e filhos. A água da vida, que a terra dá a todos que nela moram, é [para esses mortos]... estagnada e morta; a água flui para todos os que moram na terra, enquanto que... é apenas um líquido putrefato [para os que morreram]... [Nesse] vale de mortos [quem está lá, diz: ‘] eu não sei onde estou nem quem eu sou... Dê-me água corrente para beber. . . Deixe-me ficar na beirada da água com meu rosto para o Norte, que a brisa me afague e meu coração seja revigorado e afastado de sua dor[’] ”. – History of Egypt, Chaldea, Syria, Babylonia and Assyria (1901-1906), vol. 1, de Angelo S. Rappoport, Gaston Maspero e outros, pp. 158, 159.

- Israel e Judá: “O Cheol lá em baixo está por tua causa turbado, para te encontrar na tua vinda: por tua causa desperta as sombras, os principais da terra, e faz levantar-se dos seus tronos a todos os reis das nações. Todos eles responderão e te dirão: Também tu estás fraco como nós? tornas-te semelhante a nós? Abatida está até o Cheol a tua pompa... serás precipitado para o Cheol, para as extremidades do abismo”. – Isaías 14:9-11, TB (texto sobre a morte do rei de Babilônia; compare com Ezequiel 32:21, 22).

- Grécia: “Alcançaram o prado coberto de asfódelos, onde se achavam reunidas [no Hades] as almas, imagens dos mortos. A alma de Aquiles Peleio em primeiro lugar encontraram, mais a de Pátroclo, e assim a do grande e impecável Antíloco, bem como a sombra de Ajaz... Enquanto estavam reunidas à volta da sombra de Aquiles, aproximou-se-lhes a alma do filho de Atreu, Agamémnone, cheia de dor, pelas almas cercadas de quantos haviam no alto palácio do Egisto morrido e cumprido o destino”. – Odisseia, de Homero, capítulo XXIV. (texto sobre a morte de Aquiles).

Com alguma variação nos pormenores, aí estão a sonolência, inconsciência, fraqueza e tristeza experimentadas pelos mortos, de acordo com essa antiga visão! Logo, a enciclopédia acertou ao mencionar esse paralelo com a Bíblia.

E sobre aquilo que os salmistas disseram de ir para a presença de Deus e não para o Seol, o “bereano” assegura que a referida leitura foi apenas uma interpretação pessoal do autor da enciclopédia e que se eles tiveram tal pensamento não foi isso o que assentaram por escrito. Como se nota, mais um raciocínio escorregadio para se sair da situação inconveniente que a Enciclopédia Judaica deixou o autor do MB. Transcrevo a seguir os dois salmos mencionados pelo erudito judaico:

“Este é o caminho dos que confiam em si mesmos, e o dos que os seguem, aplaudindo o que eles dizem. Como ovelhas são encurralados no Cheol, a morte os pastoreia. Os justos dominam sobre eles de manhã, a sua formosura, consumi-la-á o Cheol, para não ter mais lugar onde habite. Mas Deus remirá a minha alma do poder do Cheol, pois ele me receberá”. – Salmos 49:13-15, TB.

“De certo tu os colocas em lugares escorregadios, Tu os lanças em destruição. Como são levados à destruição num momento! Ficam de todo consumidos de terrores... Todavia estava eu de contínuo contigo, Tu me tomaste pela mão direita. Guiar-me-ás com o teu conselho, e depois me receberás na glória. Quem, senão a ti, tenho eu nos céus? Não há na terra quem eu deseje além de ti”. – Salmos 73:18, 19, 23-25, TB.

Visto que todos os estudiosos da Bíblia e da historiografia judaico-cristã sabem que a esperança dos judeus era uma futura ressurreição na Terra, em corpos físicos, e a expectativa descrita nos salmos supracitados é ir para onde Deus está, no céu, torna-se evidente que tais textos não são sobre a ressurreição. Portanto, a conclusão do erudito está outra vez correta e a do “bereano” errada.

Ainda sobre a esperança da ressurreição física dos mortos (ressurreição da carne), que também foi aventada nessa parte da crítica do “bereano”, eu nunca disse que ela não existe desde os tempos mais primitivos da história hebraica. Afirmei apenas que não era um ensinamento amplo e consensual, razão pela qual há poucas referências no Antigo Testamento. Ainda que isso indique que os hebreus nutriam mesmo tal expectativa, como foi o caso de Abraão quando se dispôs a sacrificar o próprio filho, era uma crença mais limitada em comparação ao que se vê no Novo Testamento, onde a ressurreição é uma temática constante e abrangente do ensinamento cristão. São vários os eruditos que apresentam essa perspectiva, mostrando assim que houve realmente uma evolução desse tema. Não vislumbrar esses estágios diferentes da fé tem sido um obstáculo (autoimposto) que impede o autor do MB compreender corretamente essas questões. – Hebreus 11:17-19.

c) Enciclopédia Bíblica Padrão Internacional

Finalmente, vejamos como a International Standard Bible Encyclopedia (ISBE) foi usada pelo “bereano”. Antes de mencionar o que ele disse que supostamente faria esta obra estar de acordo com o que ele defende, leiam a seguinte afirmação feita nessa enciclopédia:

“Toda a doutrina do futuro julgamento no Novo Testamento pressupõe a sobrevivência após a morte”.

O autor do MB concluiu que a declaração acima significa que os mortos entram em um estado de inconsciência total e que apenas em um futuro não determinado é que eles serão “acordados” por Deus na ressurreição para voltarem à consciência e serem julgados.

Essa visão já é em si antibíblica, pois a Bíblia informa que só os ímpios serão ressuscitados para o julgamento, ao passo que os justos o serão para receber a recompensa máxima destinada a eles. Para o “bereano”, porém, aquele que Deus decidir deixar “inconsciente” (=inexistente) não será ressuscitado. Ou seja, será um julgamento onde o réu não estará presente, contradizendo assim as Escrituras Sagradas e um dos princípios básicos do Direito Natural.

De qualquer maneira, o erudito que escreveu a referida afirmação não tinha em mente nada desses conceitos espúrios. Notem o verdadeiro contexto do que foi dito no trecho citado e que culminou na frase que o autor do MB considerou isoladamente (destacada em vermelho), desconsiderando inclusive o significado básico da palavra “sobrevivência”, que é “continuar vivo”:

Seja qual for o ponto de vista assumido a respeito do desenvolvimento da doutrina da imortalidade da alma no A[ntigo] T[estamento] (veja Escatologia do AT), dificilmente haverá dúvida que é completamente assumido no N[ovo] T[estamento] que as almas dos homens, bons e maus, sobrevivem à morte (veja Imortalidade). Só há necessidade de se referir a duas passagens para provar isso: uma, os dizeres de Cristo em Mat. 10:28: ‘Não temais os que matam o corpo, mas não podem matar a alma; antes disso, temam aquele que pode destruir tanto a alma quanto o corpo no inferno’ (Geena); a outra, a parábola do Homem Rico e Lázaro em Luc. 16:19-31: Lázaro é carregado pelos anjos ao seio de Abraão; o rico levanta os seus olhos no Hades, estando em tormentos. Toda a doutrina do futuro julgamento no Novo Testamento pressupõe a sobrevivência após a morte”. – The International Standard Bible Encyclopedia, EUA, 1915, Vol. 4, verbete “Punição”, James Orr, p. 2502.

Perceba que a sobrevivência mencionada é imediata, e tem por base o relato de dois homens que morreram e foram de maneira consciente para dois lugares distintos (parábola do rico e Lázaro), além dos dizeres de Jesus sobre a impossibilidade dos homens matarem a alma de alguém, pois só o corpo morre, mas a alma permanece. Na ilustração, quando o rico está em sofrimento nas chamas do Hades ele expressa o desejo de que alguém alerte seus irmãos para que não tenham o mesmo destino. Isso demonstra que o estado de consciência não é no futuro distante, mas no mesmo período de tempo em que os personagens viveram na Terra (Lucas 16:19-31; Mateus 10:28). E é exatamente esta a conclusão de James Orr, conforme ele diz no parágrafo imediatamente seguinte do verbete:

“A retribuição pelo pecado é um ponto fundamental no ensino tanto do Antigo Testamento quanto do Novo Testamento. A doutrina do juízo, novamente, no Novo Testamento, com Cristo qual juiz, relaciona-se com esse ponto. As seguintes passagens são decisivas: Isa. 3:10,11; Mat. 11:22,24; 12:41,42; Rom. 2 5,12; 2 Cor 5:10; Gal 6:7, 8, etc (veja RetribuiÇÃo). A consciência durante a punição pelo pecado no estado futuro já está implícita nos textos precedentes. A parábola do Homem Rico fala disso como se seguindo imediatamente à morte no Hades; todas as descrições do julgamento implicam dor e angústia como resultado da condenação (cf. Rom 2:5,12). Isso não determina a natureza ou a duração da punição; mas exclui a ideia de que a morte física é a extinção do ser, ou que a aniquilação se segue imediatamente depois da morte ou do julgamento”. – ibid.

O autor do MB sustenta que após o julgamento os maus serão aniquilados (na verdade, para ele isso já ocorre depois da morte, mas evita colocar a situação nesses termos). No entanto, o verbete inteiro tem por objetivo mostrar que o Novo Testamento ensina que os ímpios serão punidos com sofrimento no “inferno” (Hades ou Geena) e não aniquilados. E mais adiante James Orr diz ainda o seguinte contra o conceito aniquilacionista e suas variações:

“A visão favorecida por outro grupo é a da aniquilação dos definitivamente impenitentes. O tipo de doutrina chamada de ‘imortalidade condicional’ que inclui outros elementos que não precisam ser discutidos aqui (ver Imortalidade). A teoria da aniquilação assume diferentes formas. Desde a suposta aniquilação que ocorre na morte, contradizendo assim as Escrituras, que apoiam a sobrevivência da alma após a morte, até a crença de que isso acontece após um período mais longo ou mais curto de sofrimento consciente (que é a teoria de White), o que deixa seus defensores em dificuldades com suas próprias interpretações de ‘morte’, ‘destruição’, ‘perecimento’... A teoria também conflita com a ideia de gradação da punição... e repousa realmente sobre uma concepção excessivamente estreita do significado dos termos bíblicos ‘vida’ e ‘morte’. A vida não é uma mera existência, nem a ‘morte’ é necessariamente a extinção do ser”. – ibid., p. 2503.

Para quem achar que a evidência apresentada até aqui não é suficiente para provar o uso completamente errôneo que o “bereano” fez dessa obra, basta conferir vários outros trechos da International Standard Bible Encyclopedia que apresentam o mesmo entendimento de sobrevivência imediata e consciente após a morte. A seguir apresento alguns exemplos. As citações são parciais e com colchetes acrescentados em algumas partes para não deixar a exposição muito longa. Não é para esconder do leitor alguma informação inconveniente conforme o autor do MB sempre me acusa quando vê esses encurtamentos que eu faço. Quem souber inglês e quiser ler na íntegra as páginas citadas, basta acessá-las nos links indicados em cada excerto. Ressalto que a citação do volume 3 é de um verbete também escrito por James Orr.

Volume 1:

“A expressão [‘o Seio de Abraão’] ocorre em Luc. 16:22, 23, na parábola do homem rico e Lázaro, para indicar o local de repouso para o qual Lázaro foi carregado após sua morte… um lugar de bem-aventurança por si mesmo. Lá Abraão recebe, como em uma festa, os verdadeiramente fiéis, e os admite à mais próxima intimidade. Pode ser considerado como equivalente ao ‘Paraíso’ de Lucas 23:43”. – ISBE, p. 22.

“É bastante certo que Nosso Senhor aceitou os principais ensinamentos do Antigo Testamento sobre os anjos, bem como a crença judaica posterior em anjos bons e maus. Ele fala dos ‘anjos no céu’ (Mat. 22:30)… eles carregam (em uma parábola) a alma de Lázaro até o seio de Abraão”. – ISBE, p. 134.

Volume 2:

Que a alma, ou alguma parte consciente do homem, não perece na morte, mas passa para outro estado de existência comumente concebido como sombria e inerte… é uma crença encontradaem todas as religiões antigas… A concepção hebraica de Seol, o lugar de reunião dos mortos, não é essencialmente diferente. ‘A semelhança’, diz o Dr. Salmond, ‘entre o hebraico Seol, o Homérico Hades e o babilônico Aralu é inconfundível’ (op. cit., 3ª ed, 173)... A sobrevivência da alma ou sombra já é assumida antes que possa haver adoração de ancestrais... os povos de baixa e alta cultura pensam quase universalmente da parte consciente de seus mortos como sobreviventes. Por motivos naturais, os hebreus fizeram o mesmo. Só que, do ponto de vista bíblico, essa forma de sobrevivência é muito pobre para ser digna de receber o elevado nome de ‘imortalidade

“[Seol] é freqüentemente traduzido erroneamente por ‘sepultura’ ou ‘inferno’ na Revised Version. Conforme já foi dito, porém, denota o lugar ou morada dos mortos, e é concebido como situado nas profundezas da terra... Os mortos estão reunidos em companhias; daí a recorrente expressão ‘foi ajuntado ao seu povo’ (Gên. 25: 8; 35:29; 49:33; Núm. 20:24, etc), frase que denota, como mostra o contexto, algo bem distinto de sepultamento. Jacó, por exemplo, foi ‘ajuntado ao seu povo’; depois que seu corpo foi embalsamado e, muito mais tarde, enterrado (Gen. 60:2ss). Descrições poéticas do Sheol não se destinam a ser tomadas com literalidade; por isso, é um erro, conforme o Dr. Charles, insistir em detalhes como ‘barras’ e ‘portões’... Na concepção geral, o Seol é um lugar de escuridão… de silêncio… de esquecimento… Mesmo essa linguagem não deve ser tomada muito literalmente. São expressões que fazem parte de um estilo deprimido ou desesperado… Em outros lugares é reconhecido que a consciência permanence [no Seol]; em Isa. 14:9 as sombras (rephā’īm), que uma vez eram poderosos reis, são levantadas para recepcionar o rei de Babilônia que descia [para lá, depois que morreu] (cf. Eze. 32:21)... no entanto, como acontece com outros povos, a existência no Seol é representada como fraca, inerte, sombria, desprovida de interesses e objetivos dos vivos”. – ISBE, p. 974.

“O estado da morte é freqüentemente representado como um ‘sono’, assim como o ato de morrer como ‘adormecer’ (Mt 9:24…)… A representação se aplica não à ‘alma’ ou ‘espírito’, como se um estado de inconsciência até a ressurreição estivesse implícito… o ponto de comparação é que, como quem dorme não está vivo para o seu redor, os mortos não estão mais em contato com essa vida terrena... Só porque os mortos estão adormecidos para a nossa vida terrena, que é mediada pelo corpo [físico], não se conclui com isso que eles estão adormecidos em todas as outras relações, adormecidos para a vida do outro mundo, que seus espíritos estão inconscientes. Contra a [ideia de] inconsciência dos mortos veja Luc. 16:23; 23:43; João 11:25,26; Atos 7:59; 1 Cor. 5:8; Fil. 1:23; Apoc. 6:9-11; 7:9… Quanto aos próprios santos que partiram, supõe-se que eles têm conhecimento mútuo uns dos outros no estado intermediário, juntamente com a memória dos fatos e condições da vida terrestre (Luc. 16:9, 19-31)”. – ISBE, pp. 991, 992.

“Luc. 23:43; 2 Cor 6:6-8; Fil. 1:23; Apoc. 6:9; 7:9ss; 15:2ss, ensinam que a morada dos crentes imediatamente após a morte é com Cristo e Deus… [No Novo Testamento, o Hades] não é um receptáculo provisório para todos os mortos, mas claramente associado à punição dos ímpios”. – ISBE, pp. 1314, 1315.

Volume 3:

A alma sobrevive ao corpo… [Disse Jesus:] ‘… todo aquele que vive e crê em mim nunca morrerá’ (João 11:25ss)… Conforme Suas palavras ao ladrão arrependido: ‘Hoje estarás comigo no Paraíso’ (Luc. 23:43). A sobrevivência dos justos e maus está implícita na parábola do homem rico e Lázaro… A doutrina de um julgamento futuro depende e pressupõe essa verdade… A morte para os remidos, embora seja resultado do pecado, não destrói a relação da alma com Deus e com Cristo. A vida eterna implantada na alma floresce no tempo… A alma está, de fato, em um estado incompleto até a ressurreição. ‘Espera… a redenção do nosso corpo’ (Rom. 8:23). Mesmo assim é feliz em seu estado, ainda que incompleto… Ela mora em uma câmara da casa do Pai (Jo 14:2ss; 17:24). Mesmo no estado despido (‘ausente do corpo’), ela deve estar ‘no lar com o Senhor’ (2 Cor. 6:8). É para ela um objeto de desejo estar ‘com Cristo’ naquele estado após a morte (Fil. 1:21)… [Já os ímpios são] excluídos da bem-aventurança dos justos, … [o estado deles] é descrito por Jesus e Seus apóstolos como uma das mais duras tribulações e angústias… Isto não é ‘imortalidade’ ou ‘vida’, embora a existência continuada da alma esteja implícita”. – ISBE, p. 1461.

Volume 4:

“Personalidade é aquilo que constitui e caracteriza uma pessoa. A palavra ‘pessoa’ (latim persona) é derivada da máscara através da qual um ator falou sua parte (per-sona)… A personalidade é a unidade de todo o ser racional… é aquilo que é mais profundo no homem, pertencendo, é claro, não ao reino do espaço ou à região do visível, mas existindo como uma realidade espiritual no tempo, com um destino além dele. É a substância (hupostasis) do ser, aquilo que subjaz todas as suas manifestações; daí a expressão ‘a imagem expressa de sua pessoa’ em Heb. 1:3... A personalidade humana, sendo espiritual, sobrevive à dissolução corporal e em Cristo torna-se vestida novamente com um corpo espiritual (Fil. 3:21; 1 Cor. 15:44)”. – ISBE, pp. 2337, 2338.

“A nephesh [alma] e o rūa [espírito] eram quantidades incertas, e mesmo o Novo Testamento não tem uma terminologia consistente para a parte imortal do homem (‘alma’, Apoc. 6:9; 20:4; ‘espírito’, Heb. 12:23; 1 Ped. 3:19). São Paulo evita qualquer termo em 1 Cor. 15, e em 2 Cor. 5 diz: ‘eu’)… A personalidade do crente sobrevive após a morte e está com Cristo. Mas está faltando algo que será suprido na consumação, quando um corpo será dado… Os discípulos estavam familiarizados com a aparição de um espírito, como o de Samuel, e com a ressurreição de um corpo, como o de Lázaro, mas o que eles não haviam experimentado ou imaginado era a realidade de um corpo espiritual, a combinação de corpo e espírito em um corpo espiritual, de uma maneira inteiramente nova… ‘A sobrevivência da alma não é ressurreição’.”. – ISBE, pp. 2563-2566.

“Assim, por uma fácil gradação, [o espírito] pode representar as profundezas abismais da personalidade; enquanto a ‘alma’ expressaria a individualidade do homem em geral... A Escritura admite um dualismo, que reconhece a existência separada da alma e do corpo. Ela rejeita um monismo, que faz do homem apenas ‘uma unidade dupla’ (Bain)… Mas se o corpo é mortal, a alma é imortal? Neste ponto, o Novo Testamento não dá um som incerto, e embora a doutrina não seja tão claramente expressa no Antigo Testamento, ainda assim, o próprio parentesco com Deus é a garantia do homem para a comunhão eterna com Ele… a morte na Escritura Sagrada não é uma separação sem esperança do corpo e alma. O Novo Testamento soa uma nota ainda mais clara que o Antigo Testamento; porque Cristo trouxe ‘vida e imortalidade à luz’. ‘Nós sabemos’, diz Paulo, ‘que temos um edifício de Deus’, após a dissolução de nosso tabernáculo (2 Cor. 6:1)”. – ISBE, pp. 2497, 2498.

Volume 5:

Nephesh ou ‘alma’ só pode denotar a vida individual com uma organização ou corpo material. Pneuma ou ‘espírito’ não é tão restrito. As Escrituras falam dos ‘espíritos de homens justos que foram aperfeiçoados’ (Heb. 12:23), de onde não se pode deduzir nenhuma organização material, física ou corporal. Eles são seres espirituais libertos dos assaltos e impurezas da carne’ (Delitzsch, in loc.). Para um uso excepcional de psuchē com o mesmo sentido veja Apoc. 6:9; 20:4… Isto explica as expressões no Novo Testamento que mencionam a salvação da alma e sua preservação nas regiões dos mortos. ‘Não deixarás a minha alma no Hades’ (o mundo das sombras) (Atos 2:27)… As mesmas expressões ou semelhantes podem ser encontradas no Antigo Testamento em referência à alma... Talvez isso explique… porque mesmo um cadáver é chamado nephesh ou alma no Antigo Testamento, porque, na região dos mortos a individualidade é retida e, em certa medida, separada de Deus (cf. Ageu 2:13; Lev. 21:11)”. – ISBE, pp. 2837.

“... A parábola do Rico e Lázaro nos dá a triste imagem de um rico egoísta que abusou de sua confiança, que não conseguiu fazer amizades com seu dinheiro e que, no outro mundo, teria dado qualquer coisa apenas por um amigo como esse (Luc. 16:19-31)”. – ISBE, p. 3076.

Diante de tão fartas evidências, seria completamente desnecessário verificar a argumentação do “bereano” e ela já poderia ser prontamente ignorada, sem nem sequer ser lida. No entanto, é bom que vejamos o que ele disse para comprovar que ele faz tão somente uso de elementos casuais e irrelevantes que não afetam o entendimento supramencionado dos autores da enciclopédia. Isto será demonstrado na seção seguinte.

7. UM VERDADEIRO EXEMPLO DE AMPLA DETURPAÇÃO DO QUE DISSERAM OS ERUDITOS

A “metodologia” utilizada pelo autor do MB para distorcer o que disseram os eruditos da International Standard Bible Encyclopedia (ISBE) é recorrente e representativa do que ele fez com a maioria das demais obras. Por isso, quem ler a exposição a seguir terá uma noção satisfatória do problema. Antes de seguir adiante, porém, ressalto que é importante que o item “c” da seção anterior tenha sido lido na íntegra, pois algumas citações importantes da enciclopédia que contradizem a releitura do “bereano” não serão repetidas aqui, mas apenas relembradas, salvo algumas exceções. Vamos lá, então!

Ele começa o argumento acusando o autor “imortalista” (ou seja, eu) de ‘ignorar as demais declarações dos eruditos’ e se concentrar em uma declaração isolada.

Pois sempre somos mais ou menos influenciados pelo conceito grego, platônico, de que o corpo morre, mas a alma é imortal. Tal ideia é totalmente contrária à consciência israelita, e não se encontra em parte alguma no Antigo Testamento. [ISBE]

A “técnica” usada no artigo imortalista para “anular” o que diz essa obra foi a mesma usada no caso de muitas outras obras consideradas aqui: ignorar praticamente todas as informações que os eruditos forneceram na matéria e concentrar o foco numa citação isolada (que será abordada aqui), com o fim de fazer a Enciclopédia se “contradizer”.

Mas não foi exatamente isso que o “bereano” fez? Ou seja, ignorar praticamente tudo o que os eruditos da enciclopédia disseram a respeito do assunto, conforme ficou evidente nos exemplos da seção anterior? Sendo assim, mais uma vez ele acusa os outros do que ele mesmo faz. E notem que ele já começa o argumento adiando a verificação da suposta “citação isolada”, que é aquele trecho que culmina na afirmação da ISBE: “Toda a doutrina do futuro julgamento no Novo Testamento pressupõe a sobrevivência após a morte”. O motivo desse adiamento é óbvio. A citação completa já é suficiente para desmontar a releitura do “bereano” a respeito do que James Orr disse. Por esta razão, é necessário primeiramente preparar o leitor para o trecho inconveniente, desviando a atenção do que é fundamental para elementos circunstanciais. Ele prossegue:

(O que estiver em azul daqui em diante são declarações minhas que o “bereano” citou).

Referindo-se à citação acima, o texto indicado a nós começou dizendo:

A mesma coisa: a imortalidade da alma conforme os gregos concebiam não é ensinada na Bíblia.

Como é que é? “A mesma coisa”? É inacreditável essa “coragem” de tratar uma fonte credenciada dessa maneira desleixada, “mutilando” a obra, para fazê-la simplesmente “repetir” verdades óbvias, como se o erudito não tivesse dito nada além disso!

Por acaso haveria a possibilidade de alguma concepção grega ser ensinada nas Escrituras Hebraicas? Será que precisamos consultar uma enciclopédia para saber disso? No contexto do que está sendo discutido, esta frase absurdamente genérica e superficial não representa de jeito nenhum “a mesma coisa” que foi dita na Enciclopédia!

No processo de preparação para a afirmação indesejada da ISBE, o autor do MB recorre agora ao recurso da indignação, como se eu tivesse dito alguma coisa terrível. Desleixo é ele não ler o verbete inteiro que foi escrito por James Orr, como parece ter sido o caso. Ou então sonegar do leitor a informação de que Orr estava claramente ensinando a sobrevivência imediata após a morte. Se foi isto, então o “bereano” agiu com desonestidade.

E quando eu disse “a mesma coisa”, eu me referi às críticas comumente vistas em outras obras de referência a respeito do conceito de imortalidade da alma. Em geral, quando elas fazem isso elas estão se referindo ao ensinamento grego e não à simples aceitação de que a alma permanece viva depois da morte do corpo. Para os filósofos gregos o corpo é totalmente mau e é para sempre descartado no falecimento, ao passo que para os cristãos ele será dado de volta na ressurreição. Continuar a alma viva depois da morte não é imortalidade. Por isso se diz que os anjos não são imortais, embora não morram. A essência disso está resumida no trecho abaixo da enciclopédia:

“Do ponto de vista bíblico, essa forma de sobrevivência [no Seol] é muito pobre para ser digna de receber o elevado nome de ‘imortalidade’.” – Vol. 2, p. 974.

Para mais detalhes sobre essa particularidade, leiam o artigo “As armadilhas da ‘imortalidade da alma’ e da literatura dos problemas”, também de minha autoria. Lá vocês verão o que a ISBE tem mais a dizer sobre isso. Enquanto isso, continuemos analisando a linha de raciocínio do “bereano”:

Por que o erudito disse que o conceito de que “o corpo morre, mas a alma é imortal” não é ensinado na Bíblia? Por esta razão:

Tal ideia é totalmente contrária à consciência israelita.”

Esta expressão absoluta foi a usada. Em momento algum o erudito se pôs a discutir o conceito de “imortal” (como se ninguém soubesse o que é isso!) ou falou alguma generalidade sobre 'concepção grega'. Será que ele se limitou a essa “informação desconhecida” de que “o que os gregos concebiam não é ensinado na Bíblia”? Não! Ele disse uma coisa bem diferente (e “inadmissível” para alguns):

... sempre somos mais ou menos influenciados pelo conceito gregoplatônico, de que o corpo morre, mas a alma é imortal.”

Essa “consciência israelita” faz parte justamente daquele período sobre o qual Orr disse que estava em desenvolvimento um conceito de imortalidade da alma no Antigo Testamento, e que seja qual for a visão que se tenha sobre os conceitos de tal época torna-se irrelevante ante o fato de que o Novo Testamento mostra claramente que a alma de quem morreu realmente sobrevive de maneira consciente à morte. O erudito estava apenas recapitulando a antiga concepção hebraica, mas o que ele realmente estava defendendo era isso daqui:

“A alma está, de fato, em um estado incompleto até a ressurreição... Mesmo assim é feliz… mora em uma câmara da casa do Pai… [Os ímpios são] excluídos da bem-aventurança dos justos… [nas] mais duras tribulações e angústias [do Hades ou da Geena]… Isto não é ‘imortalidade’ ou ‘vida’, embora a existência continuada da alma esteja implícita”. – Vol. 3, p. 1461.

Novamente, o mesmo conceito. Biblicamente falando, ficar vivo por tempo indeterminado não é o mesmo que imortalidade, pelo menos não aquela usufruída por Jesus e os que receberem a “coroa da vida” depois da ressurreição, pois se trata de uma imortalidade com diversos atributos especiais como a indestrutibilidade e poder além da imaginação. Os demais seres espirituais até podem ser chamados de imortais porque efetivamente não morrem, porém é preciso saber distingui-los dos que realmente usufruem a imortalidade plena. É essa visão mais ampla que permite em determinados momentos dizer que a alma do homem é imortal. É a doutrina cristã da imortalidade, que diverge em vários aspectos da visão grega. No artigo recomendado anteriormente isso está melhor explicado.

O erudito não só foi bem específico, como ainda declarou explicitamente aquela realidade “indesejável”, contra a qual certos apologistas da “imortalidade inerente da alma” tanto “esperneiam” (e até já chamaram de "balela", inclusive!): que o que influenciou ‘em maior ou menor grau’ a teologia referente à natureza humana não foi o conceito hebraico (que está refletido nas Escrituras) e sim o conceito da filosofia platônica. E o erudito ainda usou este termo absoluto: “sempre”.

Seria necessário um espaço maior para discutir essa “influência”, que não é o objetivo aqui. Mas quem quiser se inteirar a respeito, recomendo novamente o texto: “A filosofia grega influenciou mesmo o conceito do Cristianismo sobre imortalidade?” De todo modo, o mesmo erudito também afirmou que aquilo que influenciou decisivamente o conceito cristão de que a alma continua viva depois da morte foi o Novo Testamento, e não a filosofia grega. Só depois é que houve um diálogo entre as escolas filosóficas e a igreja primitiva, devido a filósofos gregos terem se convertido ao Cristianismo.

No entanto, conforme vocês poderão constatar no artigo acima sugerido, alguns pontos sempre foram inegociáveis para o Cristianismo. Na verdade, a influência grega foi mais na linguagem cristã do que na essência de suas doutrinas. Além disso, alguns ensinamentos filosóficos que nada têm a ver com esse assunto da alma também foram acolhidos por cristãos do mundo greco-romano e tal influência é sentida até hoje. Mas voltando à análise, o “bereano” continua:

Mesmo assim, de acordo com a mesma Bíblia, os que morrem continuam vivos no Hades ou Seol, ainda que enfraquecidos, dormindo ou inconscientes.

Errado. “A mesma Bíblia” não diz isso, e tampouco a Enciclopédia disse. Estas foram as palavras dela:

O homem inteiro morre, quando na morte o espírito (Sal. 146:4, Ecle. 12:7), ou alma (Gênesis 35:18; 2 Sam. 1:9; 1 Reis 17:21; Jon. 4: 3), sai de um homem. Não só o seu corpo, mas sua alma também retorna a uma condição de morte e pertence ao mundo inferior; desta forma o Antigo Testamento pode falar da morte da alma de alguém (Gen. 37:21 (hebraico), Num. 23:10, Deut. 22:21, Jui. 16:30, Jó 36:14, Sal. 78:50).

Conforme visto no rol de citações da seção precedente, que não é preciso citar aqui novamente, a enciclopédia diz sim que os mortos continuam vivos no Seol em um estado fraco, debilitado e sonolento, em referência à antiga crença dos hebreus, que guardava alguma similaridade com a dos outros povos semitas. E tais declarações dos eruditos estão baseadas em textos bíblicos a exemplo de Isaías 14:9 e Ezequiel 32:21, que mencionam os falecidos reis de Babilônia e do Egito sendo recepcionados no Seol pelas “sombras” (=almas imateriais dos mortos).

Até mesmo a citação anterior feita pelo “bereano” traz implícita a mesma ideia, quando diz que ‘a alma vai para o mundo inferior’, local que os hebreus situavam nas profundezas da Terra, como a enciclopédia também nos esclareceu. Se os corpos de quem morriam ficavam nos túmulos na superfície, obviamente o que ia para o profundo subsolo era outra coisa, imaterial e invisível. Lógica simples, mas eficiente para esclarecer o ponto. Portanto, a morte para o corpo é ir para o cemitério, mas para a alma é ir para o Seol, ou para o céu hoje em dia, no caso dos que são salvos. Detalhe também explicado pelos mesmos eruditos da ISBE, como foi visto na seção 6.

Mas a inconsciência aqui é mais ou menos como a inconsciência durante o sono de um ser humano

Errado. Nada de "mais ou menos". Outro absurdo, fruto de “desatenção” pura e simples. A expressão “mais ou menos” só foi usada quando se discutiu a influência do conceito platônico na teologia. Em se tratando da inconsciência dos mortos, o erudito usou foi uma sucessão de termos nada incertos, e ainda citou os textos bíblicos que validam o uso de cada um deles. Repetindo aqui:

Seol (she'ol) está em contraste com a terra dos vivos em todos os aspectos (Jó 28:13, Prov. 15:24, Eze. 26:20; 32:23); é uma morada de escuridão e sombra da morte (Jó 10:21, 22, Sal. 88:12; 143:3), um lugar de destruição, sim a própria destruição (Jó 26:6; 28:22; 31:12, Sal. 88:11, Prov. 27:20), sem qualquer ordem (Jó 10:22), uma terra de descanso, de silêncio, de esquecimento (Jó 3:13, 17, 18, Sal. 94:17; 115:17), onde Deus e o homem não são mais visíveis (Isa. 38:11), Deus não é mais louvado ou recebe agradecimentos (Sal. 6:5; 115:17), as perfeições dele não são mais reconhecidas (Sal. 88:10-13; 38:18, 19), suas maravilhas não são mais contempladas (Sal. 88,12), onde os mortos estão inconscientes, não realizam mais trabalho, não cuidam de nada, não possuem qualquer conhecimento ou sabedoria, nem têm mais parte em nada que se faz debaixo do sol (Ecle. 9:5, 6, 10).

Eu não usei a expressão “mais ou menos” em alusão ao que foi dito sobre o platonismo. Estava falando de outro assunto. Foi apenas coincidência ou então fui induzido inconscientemente pela frase do referido trecho ao escolher as palavras.

Quanto às descrições do erudito sobre o mundo dos mortos, um aspecto importante que aparentemente passou despercebido para o “bereano” é que o erudito estava se referindo sim à existência das criaturas imateriais e invisíveis que o Antigo Testamento chama de “sombras” e que vivem precariamente em outro mundo chamado de Seol. São elas que passam por todas aquelas situações descritas (sono, inconsciência, fraqueza etc.), conforme a antiga crença hebraica, mas que foi se modificando com o tempo até a expectativa da ressurreição ficar bem estabelecida na nação judaica. O autor do verbete tinha todo esse contexto em mente, conforme se infere do que ele escreveu pouco depois:

“Ele [Deus] vive no céu, mas por Seu espírito se faz presente também no Seol (Sal. 139:7, 8)… Esta revelação gradativa rejeita o velho contraste entre a vida na terra e a existência desconsolada depois da morte no lugar chamado Seol, e coloca outra coisa em seu lugar”. – ISBE, vol. 2, pp. 811, 812.

Ninguém que ainda está vivo na Terra pode fazer uma visita ao Seol e ver o que está se passando por lá, pois ele não se trata de um lugar do nosso mundo. Mas Deus pode fazer isso, pelo poder de Seu espírito, como foi informado pelo erudito.

[A inconsciência] não significa que a pessoa não existe ou não está viva.

Errado. “Desatenção” primária novamente. Quem quer que leia a Enciclopédia (ou a Bíblia), não verá nenhuma mistura do conceito de “inexistência” com o de “inconsciência”. O erudito não fez essa confusão, porque estes conceitos não são equivalentes. As palavras dele foram estas:

Esta morte do homem... não é aniquilação... [O Seol é]... onde os mortos estão inconscientes, não realizam mais trabalho, não cuidam de nada, não possuem qualquer conhecimento ou sabedoria, nem têm mais parte em nada que se faz debaixo do sol (Ecle. 9:5, 6, 10).

A frase que reflete coerentemente o pensamento do erudito, portanto, é esta:

‘[A inconsciência] não significa que a pessoa não existe. Significa que ela não está viva.’

Errado, digo eu! E não só pelo que estamos analisando aqui, mas também pelo motivo informado na primeira seção deste artigo e no apêndice A. O que autor do MB defende é sim a inexistência depois da morte, porém ultimamente ele não coloca mais a situação nessa perspectiva, a fim de forçar uma harmonização com as declarações dos eruditos, que têm como base textos a exemplo de Mateus 10:28. De fato, para os eruditos, inconsciência e inexistência são conceitos diferentes, e eu concordo com eles. O que eu disse não foi em referência à crença deles, mas à do “bereano”. Percebam também a insinuação que ele faz ao colocar a palavra “desatenção” entre aspas, querendo dizer que meu suposto erro é proposital.

E confusão quem está fazendo é ele, embora em um aspecto que realmente é difícil um aniquilacionista enxergar. O homem (de carne e osso) deixa mesmo de viver, porém sua alma (“sombra”) continua viva, não importando aqui em qual situação. Se alegre ou triste, se dormindo ou acordada. Ou seja, é apenas uma questão de ponto de vista: morto para o nosso mundo, mas vivo para o outro. De modo que a melhor maneira de parafrasear o que eu disse para ficar mais de acordo com os autores da ISBE, em referência à primitiva concepção hebraica, seria: ‘[A inconsciência] não significa que a pessoa não existe. Significa que ela está viva, mas de uma maneira diferente’.

Retomando o que foi dito um pouco mais atrás, quando o erudito falou da situação dos mortos, ele tinha em mente um lugar real, porém invisível, e que os seus habitantes são privados das atividades dos seres humanos. Mas eles possuem sim determinado grau de consciência, pois a inconsciência deles não é permanente e absoluta. A sonolência que experimentam é apenas resultado do mundo sem graça onde estão. Isto na antiga concepção hebraica, claro. Tenham sempre isto em mente. Se não fosse assim o erudito não teria afirmado que os moradores do Seol ficam ‘desconsolados depois da morte’ (“sombras” tristes). Só quem está vivo pode nutrir raciocínios deprimentes. E o motivo da tristeza é simples, eles não podem mais se dedicar às atividades executadas na Terra. Se olharmos a frase completa do erudito em que ele menciona que a morte não é aniquilação essa visão fica mais evidente (o “bereano” fragmentou a citação com reticências, por isso não ficou tão claro):

“Esta morte do homem não é aniquilação, mas, ao invés disso, uma privação de tudo o que se faz para a vida na Terra”.

Novamente, só há como haver uma sensação de privação se houver vida (ainda que limitada ou insatisfatória) e algum nível de consciência. É como foi dito em outra parte da enciclopédia:

“Na concepção geral, o Seol é um lugar de escuridão… de silêncio… de esquecimento… Mesmo essa linguagem não deve ser tomada muito literalmente. São expressões que fazem parte de um estilo deprimido ou desesperado… Em outros lugares é reconhecido que a consciência permanence [no Seol]; em Isa. 14:9 as sombras (rephā’īm), que uma vez eram poderosos reis, são levantadas para recepcionar o rei de Babilônia que descia [para lá, após sua morte] (cf. Eze. 32:21)... no entanto, como acontece com outros povos, a existência no Seol é representada como fraca, inerte, sombria, desprovida de interesses e objetivos dos vivos”. – ISBE, vol. 2, p. 974.

No artigo “As armadilhas da ‘imortalidade da alma’ e da literatura dos problemas” há mais informações sobre essa confusão que os aniquilacionistas geralmente fazem. Mas prossigamos com a leitura dos argumentos do “bereano”:

Os pensamentos continuam e a pessoa acorda quando quer ou precisa. Ou seja, há movimento e atividade, mesmo que no Seol hebraico seja tudo muito mais restrito.

Errado novamente. Como já visto acima, em se tratando dos mortos no Seol, o erudito não fez referência a nenhuma dessas coisas. Os textos bíblicos citados por ele contradizem isso.

Nada de “continuam”, nem de “muito mais restrito”. Não, antes: No Seol não há movimento, não há pensamento, não há consciência, nem atividade alguma.

Nada de “a pessoa acorda quando quer e precisa”. Não, antes: Quem está no Seol só pode acordar se for ressuscitado por Deus. Esta – e apenas esta – é a maneira de haver vida após a morte apresentada nas Escrituras. Aqui estão as palavras do erudito:

O “coração da esperança da imortalidade do Antigo Testamento... era a libertação do Seol.”

Errado novamente, digo eu (outra vez)! Os textos bíblicos mencionados não contradizem essa explicação, pois outras afirmações do erudito apontam na mesma direção, ainda que ele não tenha sido tão explícito quanto o que foi informado no verbete do volume 2 da ISBE citado na seção anterior, onde foi dito que o “sono”, “inatividade” e “inconsciência” dos que estão no Seol não devem ser tomados literalmente, pois essas descrições são apenas um estilo literário e que a Bíblia Hebraica também reconhece que há alguma consciência ao dizer que as “sombras” foram recepcionar ou dar assistência aos reis de Babilônia e do Egito depois que eles faleceram. Ou seja, não foi preciso uma ressurreição para acordar tais seres e fazê-los se movimentar.

E nunca é demais lembrar que o autor do MB não aceita a visão indubitavelmente apresentada na ISBE, de que o Seol é literalmente outro mundo (porém, invisível, nas profundezas da Terra), e que só Deus sabe o que acontece por lá (Provérbios 15:11), pois segundo o “bereano” o Seol é apenas o símbolo da morte e ninguém estaria realmente lá. Neste caso, não faria sentido dizer que o espírito de Deus se faria presente em algo que não existe literalmente.

Mas, sem querer, o “bereano” acabou acertando em algo que disse. Realmente, a única maneira de haver vida depois da morte é Deus retirar a pessoa do Seol, pois, segundo a antiga visão hebraica, o que as “sombras” experimentam lá não é verdadeira vida, como dizem vez após vez os eruditos com os quais o autor do MB diz concordar (!). E depois da morte de Jesus essa retirada acontece em duas etapas, primeiro levando as almas dos justos para o céu, conforme os mesmos eruditos também explicam, e depois dando a elas um corpo físico-espiritual na ressurreição dos mortos.

E como seria essa “libertação do Seol”? Ele responde:

 “A ideia chega à expressão final na declaração em Dan. de uma ressurreição dos justos e injustos.

Esta esperança está claramente expressa no Antigo Testamento e já era mantida muitos séculos antes da vinda de Cristo à terra; não foi nenhuma “revelação posterior” aos cristãos. E mais ainda: este conceito sempre foi exclusivamente judaico; nunca houve qualquer “influência estrangeira”, como certos indivíduos tanto teimam em dizer.

Isso mesmo! O “bereano” se esqueceu apenas de dizer que não acredita que haverá realmente uma ressurreição de injustos, os quais, de acordo com o profeta, seriam ressuscitados somente para o julgamento e “abominação eterna” (Daniel 12:2), destino que o Novo Testamento chama de “Geena” ou “fogo eterno”. Para o autor do MB, os que forem julgados desfavoravelmente não precisam ser levantados dentre os mortos para ouvir a sentença. Deus apenas os mantém no estado de morte em que já estão.

E ainda sobre a ressurreição, quem disse que somente os cristãos é que foram informados dela e que os israelitas mais antigos não tinham nenhuma noção sobre isso? Realmente eu não sei de onde o “bereano” tirou essa ideia.

Mas sobre se houve alguma influência externa que contribuiu para o desenvolvimento da crença na ressurreição, de fato são vários os eruditos que sustentam a tese de que os persas contribuíram para isso. A própria Standard Bible Encyclopedia menciona essa possibilidade, no verbete “Ressurreição” (vol. 4, p. 2565). Mas se tal influência não tiver acontecido, talvez os antigos textos persas normalmente mencionados para validar essa teoria sirvam pelo menos para demonstrar que o conceito da ressurreição física não era exclusividade dos judeus, embora certamente a maioria dos povos, senão a quase totalidade, passassem longe dessa expectativa. O próprio Jó não era hebreu, personagem bíblico que fez uma breve e limitada referência à ressurreição (o que alguns contestam).

Finalmente chegamos ao ponto que o “bereano” adiou o máximo que pôde para comentar, depois de apresentar tudo o que foi analisado até aqui:

Por fim, há aquela outra citação da Enciclopédia (que nos foi apontada, conforme referido no início), que requer análise. Ela se encontra sob o tema PUNIÇÃO ETERNA (págs. 2501, 2502):

“Independentemente do ponto de vista adotado sobre o desenvolvimento da doutrina da imortalidade da alma no AT (veja ESCATOLOGIA DO AT), dificilmente haverá dúvida de que é completamente assumido no NT que as almas dos homens, bons e maus, sobrevivem à morte (veja IMORTALIDADE). Só é preciso citar dois trechos para provar isso: um, o pronunciamento de Cristo em Mat. 10:28: “E não temais os que matam o corpo, e não podem matar a alma; temei antes aquele que pode fazer perecer no inferno (Geena) tanto a alma como o corpo.”; o outro, a parábola do Homem Rico e Lázaro em Luc. 16:19-31: Lázaro é carregado pelos anjos para o seio de Abraão; o rico levanta os seus olhos no Hades, estando em tormentos. Toda a doutrina do futuro julgamento no Novo Testamento pressupõe a sobrevivência após a morte”.

Será que este trecho contradiz alguma coisa que o erudito disse nos demais trechos que foram citados no Mentes Bereanas (e, para variar, completamente ignorados na apologia do imortalismo)? Embora muita informação poderia ser dada aqui, para o propósito da questão discutida não há necessidade de nos delongarmos muito sobre ele. É suficiente dizer o seguinte:

É até uma covardia apresentar somente agora a pergunta que o “bereano” faz aí nessa parte, pois já vimos evidências retumbantes de que esse trecho contradiz sim tudo o que foi explicado anteriormente pelo autor do MB. Na verdade, invalida completamente o que ele sustenta! Conforme visto, em um breve movimento de olhos, nota-se no parágrafo imediatamente seguinte que o erudito autor do verbete (James Orr) afirma de maneira categórica que a sobrevivência é imediata após a morte e não em um futuro a perder de vista, embora nem fosse necessário, pois a citação acima já é suficiente para compreender isso. E alguns parágrafos mais à frente ele diz que o Novo Testamento não apoia o conceito de aniquilação, quer seja depois da morte, quer depois do Juízo Final.

Sendo assim, realmente seria necessário apresentar muita informação para tentar reverter esse quadro, mas, como se vê, o “bereano” diz que vai se limitar apenas ao que acha “suficiente dizer”. Vejamos então do que se trata:

Em primeiro lugar, embora seja dito que “é completamente assumido no Novo Testamento que as almas dos homens... sobrevivem à morte”, não foi negado que havia essa presunção no Antigo Testamento, como se o conceito da “sobrevivência após a morte” fosse alguma “revelação posterior” que só foi dada aos cristãos, e que ‘os hebreus desconheciam’. Nada disso! Tudo o que o erudito está dizendo aqui é que existem diferentes “pontos de vista” sobre como se desenvolveu a doutrina da imortalidade da alma no Antigo Testamento – o que é um fato. Mas ele não sugeriu que é só o Novo Testamento que ensina que “as almas sobrevivem à morte”. Ao abordar o assunto no contexto do Antigo Testamento, esse ensino transparece claramente e o erudito mencionou isso em vários momentos.

Nesse ponto, vemos que o “bereano” se perde mais do que o normal. Primeiro ele tenta desviar a atenção para um aspecto menos importante, que é o referido desenvolvimento da imortalidade da alma no Antigo Testamento, por isso nem irei falar sobre essa questão. Em seguida ele mistura conceitos de polos opostos da discussão, rebaixando ou contradizendo o que ele próprio acredita! Se não, vejamos:

1) Para dizer que havia algum protoconceito de sobrevivência da alma no Antigo Testamento é preciso admitir que aquelas “sombras” no Seol (Isaías 14:9) equivalem, por exemplo, às “almas” que o Apocalipse diz que estão no céu (Apoc. 6:9; 20:4). A única diferença é que o primeiro grupo está em grande tristeza nas profundezas lá embaixo, ao passo que o segundo está lá nas alturas desfrutando a alegria dos anjos. Mas só que o autor do MB não acredita nisso! Ele acha que tais “sombras” são apenas cadáveres no cemitério.

2) Além do mais, lembrem-se que ele direcionou todo o esforço nas explicações supracitadas para demonstrar que, de acordo com o Antigo Testamento, não há nenhuma vida imediata depois da morte. Por isso disse em ocasiões anteriores que a alma morre, porque a alma é o próprio homem. Como é que agora ele dá as costas a tudo isso e diz que não é bem assim?

3) É claro que ele poderia tentar se sobressair do ponto anterior por dizer que a “sobrevivência” é na futura ressurreição aludida em alguns textos da Bíblia Hebraica. No entanto, conforme já comprovado, não era isso o que James Orr tinha em mente, pois o que ele afirmou é que a sobrevivência é imediata e não no futuro distante.

Portanto, no que interessa saber aqui, é completamente irrelevante o que Orr disse ou deixou de dizer sobre eventuais divergências de opinião sobre como o Velho Testamento aborda a ideia de imortalidade da alma. Isto seria significativo apenas se o “bereano” acreditasse no que esse erudito ensina.

Mas, a questão é: Que tipo de “sobrevivência após a morte” é essa? Afirmou a obra em algum momento que ela é “consciente”? – como certos imortalistas tanto insistem em afirmar teimosamente (apesar de toda a evidência bíblica e erudita contrária que eles têm diante de si), com o claro objetivo de validar de qualquer maneira as teorias criadas na imaginação deles? De modo algum! É suficiente citar novamente os trechos pertinentes da Enciclopédia:

. . . [ver mais adiante]

É óbvio que a resposta à pergunta que eu destaquei acima em negrito é um sonoro e estridente “sim”! A obra afirmou que a sobrevivência é imediata e consciente em não apenas um, mas em vários momentos, conforme vimos em citações anteriores. Mesmo assim, ele diz que são os “imortalistas” que são teimosos ante a evidência bíblica e erudita e que tentam validar a qualquer custo ideias que não passam de produto da imaginação... Mas vejamos quais seriam os trechos que seriam o último suspiro de salvação para livrar o “bereano” dessa enrascada que ele se meteu:

[O Seol é]... onde os mortos estão inconscientes, não realizam mais trabalho, não cuidam de nada, não possuem qualquer conhecimento ou sabedoria, nem têm mais parte em nada que se faz debaixo do sol...

Ela [a alma] sobrevive, mas não em um estado que possa ser chamado de “vida”. Ela passa para o Seol – a triste e sombria morada dos mortos, em que não há alegria, atividade, conhecimento dos assuntos da terra ou (na visão da Natureza) lembrança de Deus, ou louvor de Sua bondade (sobre este assunto, e a crença hebraica no estado futuro em geral, veja ESCATOLOGIA DO ANTIGO TESTAMENTO, MORTE, SEOL). Esta não é a “vida” futura – não é a “imortalidade”.

É a parte da graça e da redenção restaurar a imortalidade no verdadeiro sentido.

Por que estas declarações foram ignoradas no artigo imortalista, como se o erudito não tivesse dito nada disso? A resposta é óbvia!

Realmente a resposta é óbvia. Essas declarações não tinham sido inicialmente consideradas (mas agora foram), porque o que foi apresentado era mais do que suficiente para esclarecer bem o ponto e continua assim, pois toda essa ginástica mental que o autor do MB fez para o erudito desdizer o que ele disse não adiantou nada, pois a informação continua imóvel sem mudar 1 milímetro de sentido. Além do mais, se no meu livro eu fosse considerar detalhadamente todas as 115 obras citadas da maneira que fiz agora com a ISBE, transcrevendo integralmente todos os textos analisados, só um volume não seria suficiente. Talvez fosse necessário quase uma enciclopédia!

E sobre textos como esse de Eclesiastes, certamente os preferidos dos aniquilacionistas, já vimos que a ISBE informa que eles não devem ser tomados muito ao pé da letra, e que fazem alusão às atividades dos seres humanos que vivem debaixo do sol. Ou seja, é uma inatividade relativa, e não absoluta. E no próprio comentário acima citado da enciclopédia tal entendimento está implícito, pois James Orr afirma que o conhecimento que não há no Seol se refere aos “assuntos da terra”. Sendo assim, a inclusão dos colchetes abaixo no texto a seguir de Eclesiastes representa em grande medida as explicações dadas pelos eruditos sobre a “inatividade” dos mortos (na antiga visão hebraica):

“Tudo o que a tua mão possa fazer, faze-o com todas as tuas faculdades, porque não região dos mortos para onde vais, não há nem trabalho [humano], nem ciência [humana], nem inteligência [humana], nem sabedoria [humana]”. – Eclesiastes 9:10, MC.

E quanto à sobrevivência imediata da alma defendida por James Orr não ser a verdadeira vida (que é a vida futura depois da ressurreição), isso também já foi esclarecido. Até os que ficam vivos no sofrimento do Hades, Orr disse que não se pode falar deles como detentores da “vida eterna” ou da “imortalidade”. Portanto, não é nada do que o “bereano” pensou ao se deparar com esse trecho da ISBE.

Como seria essa ‘restauração da imortalidade no verdadeiro sentido’? A própria referência que o erudito faz à “graça” e à “redenção” torna a resposta mais do que óbvia: Isto é por meio da ressurreição dos mortos, a qual, como já visto muitas vezes, era mantida desde a antiguidade pelos hebreus – e apenas por eles – e foi possibilitada pela redenção de Cristo. Era na esperança da ressurreição (associada à esperança messiânica) que se firmava tudo o que os hebreus entendiam por “sobrevivência após a morte”.

Certamente! A imortalidade no pleno sentido será só depois da ressurreição. Nenhum problema aí. Esse é outro assunto que não está sendo em nenhum momento questionado. No entanto, para os verdadeiros cristãos a enciclopédia é muito clara em dizer que eles já usufruem uma vida imediata com Cristo nos céus, conforme demonstrado nas várias citações feitas na seção 6.

Por que Cristo esperaria milhares de anos para levar para perto de si aqueles que ele escolheu? Como já foi visto nas expectativas dos apóstolos Pedro e Paulo, e dos cristãos primitivos, não haveria essa necessidade de espera, mesmo a ressurreição geral dos mortos sendo realmente futura. Mas isto a pessoa só entende se aceitar verdadeiramente que a alma sobrevive à morte, da mesma maneira que James Orr e seus colaboradores explicaram (visto que são todos falecidos, provavelmente hoje eles já usufruem essa realidade).

Vale a pena enfatizar o que o erudito disse no final da citação acima:

“Toda a doutrina do futuro julgamento no Novo Testamento pressupõe a sobrevivência após a morte”.

Sim, vale a pena mesmo! Pois essa parte apõe um selo de “reprovado!” em cada um dos argumentos do “bereano”. Atesta o quanto eles são deturpações do que disseram os eruditos, no mais alto grau que se possa imaginar.

Quando é que ocorre esse “futuro julgamento”? É logo depois que o indivíduo morre? Não! O termo é claro: Isso é futuro. Ele ocorre depois da ressurreição. Por mais arduamente que algum imortalista se empenhe, ele jamais conseguirá obrigar as Escrituras (ou algum erudito bíblico credenciado) a “dizer” que tal julgamento ocorre em algum momento antes da ressurreição dos mortos e que os que morreram já estão sendo punidos no “inferno” ou já ganharam a “recompensa celestial”.

Sim, o julgamento é futuro, mas a sobrevivência é imediata, seja no céu ou no Hades:

“Luc. 23:43; 2 Cor 6:6-8; Fil. 1:23; Apoc. 6:9; 7:9ss; 15:2ss, ensinam que a morada dos crentes imediatamente após a morte é com Cristo e Deus… [No Novo Testamento, o Hades] não é um receptáculo provisório para todos os mortos, mas claramente associado à punição dos ímpios”. – ISBE, vol. 2, pp. 1314, 1315.

“A alma está, de fato, em um estado incompleto até a ressurreição... Mesmo assim é feliz… mora em uma câmara da casa do Pai… [Os ímpios são] excluídos da bem-aventurança dos justos… [nas] mais duras tribulações e angústias”. – ISBE, vol. 3, p. 1461.

Será que os eruditos acima credenciados e os demais citados ao longo desta seção e da anterior são suficientes para o autor do MB se convencer o quão errado ele está em sua opinião sobre esse assunto e a maneira que se valeu dos referidos eruditos?

Portanto, a citação acima não “contradiz” de modo algum as informações que a Enciclopédia forneceu na discussão sobre o Antigo Testamento. Pelo contrário, além de ela não negar coisa alguma que o erudito já havia dito com toda a clareza sobre a condição dos mortos no Seol, ainda estabelece, além de qualquer questionamento, a absoluta harmonia que existe entre os dois Testamentos bíblicos no tocante à esperança judaico-cristã da ressurreição dos mortos, como única maneira de “restaurar a imortalidade no verdadeiro sentido”.

Mais uma vez o autor do MB muda o foco do problema para tentar se safar. Em nenhum momento eu tive a intenção de mostrar que a referida citação, que foi a primeira de muitas, contradiz outras informações da enciclopédia. Mas ela contradiz e muito o que foi dito pelo “bereano”! E as demais citações da ISBE deixaram isso mais claro do que a luz do dia. Resta agora saber qual será o comportamento do “bereano” diante dos fatos, caso venha a ler este artigo – Mateus 7:6; 2 Coríntios 10:4, 5.

E notem também o seguinte detalhe: em nenhum trecho das explicações que ele deu foi mencionada a parábola do rico e Lázaro e o texto de Mateus 10:28, que serviram de base para afirmação de James Orr segundo a qual a noção de um julgamento futuro pressupõe a sobrevivência imediata da alma. Justamente por conta disto é que a parábola foi mencionada por Orr. Contexto puro e simples que foi ignorado pelo autor do site Mentes Bereanas. E ele ainda acha que não está ofendendo a inteligência de seus leitores. Também transfere o peso dessa atitude nada cristã para os “imortalistas” que critica, como se fossem eles que tivessem tal comportamento sinuoso! Realmente ele ainda tem muito sobre o que refletir para que finalmente admita que errou nesse assunto. Vamos ver se, com o tempo, ele adquire a humildade necessária para fazer isso.

8. O DESCONHECIMENTO DE FONTES PRIMÁRIAS

Outro problema grave visto nas argumentações do autor do MB é a repetição da infrutífera tentativa de alguns adventistas que visa achar na literatura patrística evidências de que os discípulos diretos dos apóstolos, e os discípulos diretos destes, acreditavam no tipo de “condicionalismo” que o “bereano” defende. Recomendo fortemente que leiam tudo o que está informado nos textos a seguir publicados em meu website. Mesmo que achem esse conhecimento não crucial, ele é muito recomendado para reforçar o que estou dizendo aqui, uma vez que é impossível expor em poucas linhas o que é necessário saber a respeito dessas informações antigas:

A filosofia grega influenciou mesmo o conceito do Cristianismo sobre imortalidade?

O que ensinaram os escritores cristãos do segundo século?

O verdadeiro conteúdo das advertências apostólicas sobre falsos ensinos

E para o “bereano” sugiro um texto adicional, já que ele também colocou em dúvida a índole cristã de Orígenes e seus ensinamentos. É o artigo que está indicado a seguir, no qual há uma análise aprofundada sobre o episódio do Éden. O texto mostra que esse antigo cristão realmente tinha fortes motivos para não acreditar que houve literalmente uma cobra falante astuciosa que enganou a primeira mulher e fez o pecado entrar no mundo, mas que a história pode ser apenas uma alegoria para descrever acontecimentos mais complexos. E tais razões não se limitam ao senso comum de que esse relato da serpente não satisfaz mentes adultas. Envolvem, por exemplo, como entender a declaração bíblica de que “todos pecaram e não atingem a glória de Deus” se apenas Adão e Eva teriam pecado. Se foi assim, por que seus descendentes seriam punidos com a inexistência após a morte, conforme preconiza o materialismo aniquilacionista, se eles não participaram da rebeldia edênica? Isto seria justo? – Romanos 3:23.

Onde ficava o Jardim do Éden?

E sobre a história da igreja primitiva, o autor do MB caiu na esparrela de um aniquilacionista do século 19 chamado Walter Balfour, que disse:

“Estes erros [os conceitos platonistas] não foram introduzidos sem oposição, pois exigiu que a autoridade eclesiástica estabelecesse a imortalidade da alma em alguns lugares. Consequentemente, Eusébio testifica que em 249 D.C., a doutrina de que ‘as almas dos homens perecem com seus corpos’, foi condenada em um concílio árabe.”

Daí o “bereano” conclui:

“Não foi o caso, portanto, de tais cristãos terem sido ‘todos convencidos por Orígenes de que estavam errados’. O conceito defendido por aqueles cristãos foi ‘condenado num concílio’ pela autoridade eclesiástica (encabeçada por Orígenes) que ‘estabeleceu’ certos conceitos como ‘verdades evangélicas’. São duas coisas bem diferentes. O fato de um concílio (de qualquer igreja que seja) ‘estabelecer’ algo, não torna automaticamente esse ‘algo’ uma ‘verdade’.”.

O concílio nada mais foi do que a conversa que Orígenes teve com as pessoas envolvidas, as quais, segundo Eusébio de Cesareia, foram convencidas de que estavam erradas quando defenderam que a alma morre junto com o corpo, conceito que contraria o ensino apostólico e o de cristãos posteriores a exemplo de Nelson Darby. Além do mais, Orígenes não possuía nenhuma autoridade eclesiástica que pudesse ser imposta aos presentes. Ele era apenas um catecúmeno que se tornou o primeiro teólogo da igreja primitiva. Seu conhecimento despertou inclusive a inveja de alguns cristãos influentes que realmente estavam em posição de autoridade. Orígenes era um homem dedicado ao estudo da Bíblia e dos clássicos gregos. Por tal nível de preparo intelectual foi enviado à Arábia pelos responsáveis da igreja, a fim de reajustar o conceito da referida comunidade. E toda a mudança se deu apenas na base da argumentação. Nada nos registros disponíveis dão conta do que Balfour afirmou, que aparentemente foi apenas uma opinião pessoal introduzida convenientemente no argumento. A condenação da heresia em potencial ocorreu de maneira consensual e não por “imposição eclesiástica”.

É claro que o autor do MB não poderia saber disso. Ele não leu os escritos patrísticos na íntegra, muito menos os de Orígenes e Eusébio. Por serem fontes primárias, que dão base a tudo o que se escreve sobre aquele período, tal leitura é fundamental e indispensável para quem se propõe a conhecer e entender o que realmente aconteceu naquele tempo. Eu mesmo já caí na armadilha de uma informação errada sobre Orígenes replicada em diversas fontes, e só descobri isso no dia que eu mesmo li as obras desse “pai da igreja”. O que exemplifica bem a necessidade dessa leitura.

Portanto, o que eu disse na quinta seção sobre recomendar a leitura de minha coletânea de autores patrísticos não foi resultado de pretensão descabida, mas apenas fruto de uma experiência pessoal de estudo que materializei na forma de um conjunto selecionado de textos que poderiam ajudar aqueles que não querem ou não têm como ler as obras patrísticas do segundo século* (eu ainda não li as que foram escritas após o século III, exceto parcialmente a “História Eclesiástica” de Eusébio). Mas o ideal mesmo é ler todas elas na íntegra e na minha coletânea eu remeto o leitor a elas. E até indico no final uma bibliografia muito recomendada de especialistas no assunto. O que atesta que eu jamais menosprezei autores eruditos que dedicaram a vida para conhecer o que ocorreu na antiga igreja.

* Na verdade, a coletânea possui também alguns autores da última metade do século I. Além disso, deixei de fora os do século III porque a ideia era apresentar o pensamento dos cristãos que estavam mais próximos da época dos apóstolos. No entanto, citações de obras posteriores podem ser vistas em outros textos que disponibilizei, a exemplo de um que apresenta o contraste entre os escritos cristãos e os da filosofia grega nos séculos iniciais da história da igreja.

Mas, como acontece em todas as áreas do conhecimento, há graus variados de expertise e ser um teólogo não é garantia de conhecimento abalizado dessa parte da história cristã. O que vai determinar isso é o quanto cada um se especializou em Patrologia. Não há porque temer títulos acadêmicos de outrem e ficar tímido achando que não possui qualificação suficiente para conhecer tais escritos e discutir sobre eles. Qualquer um com um bom nível de intelecção e interesse pela matéria pode se tornar um grande conhecedor de Patrística. Basta ler todas as obras disponíveis e estudar referências comprovadamente dedicadas ao tema, como é o caso da coleção de Philip Schaff.

E sobre a falta de capacidade que o autor do MB tem demonstrado em não saber distinguir a vida imediata com Cristo após a morte e a futura ressurreição do corpo físico, no meu livro indicado no link abaixo vocês encontrarão explicações detalhadas sobre isso que não convém mencionar aqui, para não me delongar ainda mais.

Obras Teológicas e de Referência Apoiam o Aniquilacionismo?

CONCLUSÃO

Dorme com seus pais: esta frase está em consonância com as primitivas ideias hebraicas do que ocorre após a morte. A ideia de Seol é um desenvolvimento posterior. “O Seol é a terra dos fantasmas... fracos e desamparados, sem qualquer vida em si mesmos. Ele não constituiu a base do desenvolvimento posterior de uma crença numa vida ressuscitada após a morte. Isso [a fé na ressurreição] veio ‘primariamente pela firme convicção de que Deus ainda era o Salvador de seu povo’, por mais desastroso que o destino deles parecesse ser...”

The Interpreter’s Bible

 

O sempre-presente apelo à argumentação ad hominem por parte de certos indivíduos, classificando cristãos crentes na Bíblia que concordam com as palavras desta citação nos piores termos, chamando-os de vários nomes depreciativos (só porque essas pessoas cometeram o “crime” de estarem de acordo com todos os escritores bíblicos e com o ‘amplo consenso’ da erudição judaico-cristã nos pontos da citação acima), e ainda atribuindo-lhes descaradamente declarações que eles nunca fizeram – e nem sequer imaginaram – são evidências do já mencionado ‘desespero’ (talvez o termo correto seria ‘ira amarga’) que acomete certos apologistas modernos da ‘sobrevivência da alma após a morte’ quando veem suas ‘evidências sólidas’ caindo uma após outra, sendo demolidas inexoravelmente por competentes eruditos bíblicos. É por isso que o único ‘recurso’ que resta a tais apologistas é este: deturpar – e em níveis extremos – as declarações de outros, para, quem sabe, envolve-los em suas querelas inúteis sobre assuntos que os escritores bíblicos nunca discutiram. Esta ‘técnica’ é previsível; não é preciso ser erudito para identificá-la.”. – Autor do MB.

Conforme visto no início, o “bereano” manteve o mesmo padrão das outras vezes, de atribuir a mim diversas descrições pejorativas e afirmações de que eu teria distorcido trechos dos eruditos para enganar os meus leitores. Acredito que este artigo é suficiente para vocês concluírem quem, de fato, está fazendo isso. E conforme aconteceu anteriormente, ele não me menciona diretamente e “oficialmente” todas essas acusações são contra os “imortalistas”, embora quase sempre ele esteja comentando especificamente textos de minha autoria. Este é mais um exemplo do risco que é não priorizar a essência sobre a forma. O autor do MB acha que por não me identificar nominalmente não está usando o recurso ad hominem e por isso se sente livre para me ofender de todas as maneiras que achar conveniente. A citação do início deste artigo é apenas um exemplo das muitas coisas que ele diz com o intuito de atacar o que escrevi sobre os textos dele e também questionar minha índole cristã. Obviamente, tudo isso sob o pretexto de estar defendendo um “ensinamento bíblico”.

Eu, ao contrário, embora enderece claramente as minhas críticas a ele, não o descrevi com todas essas classificações ofensivas e sempre ofereci o benefício da dúvida, de que a obstinação dele poderia se dever apenas à falta de uma reflexão e análise mais cuidadosas. Mas parece que esse não foi o caso, e o que resta agora é somente saber se o comportamento dele resulta de desonestidade ou de falta de capacidade (por causa de algum bloqueio psicológico, quem sabe). Seria algo surpreendente se fosse a segunda opção, mas mesmo assim eu preferiria muito mais que fosse ela do que a primeira.

Por fim, muito me espanta o “bereano” ficar dizendo frequentemente que eu uso “espantalhos” argumentativos se já está mais do que provado que essa enorme quantidade de citações de eruditos feitas por ele é, por si só, um enorme espantalho, pois a maioria delas não apoia o que é pretendido, como é o caso do comentarista Nelson Darby. E isso desemboca no famoso wishful thinking, que ele também atribui a mim. Novamente, na forma tais citações podem parecer satisfatórias para quem busca algo nessa linha, mas na essência erram feio o alvo! Mais detalhes no meu livro. Então, pelo que foi visto nas seções precedentes, não é implicância da minha parte afirmar que o “bereano” elevou a um novo patamar o conceito de obstinação e, infelizmente também, o de desonestidade intelectual, inclusive para consigo mesmo. É claro que ele poderá continuar tentando se desvencilhar dessa armadilha que ele próprio armou para si. Mas isso ficará cada vez mais difícil. Uma das saídas possíveis é dizer que quando os eruditos dizem algo que ele concorda trata-se de um “ensino bíblico”, mas quando eles não fazem isso é apenas opinião pessoal deles...

APÊNDICE

A. O CONCEITO MATERIALISTA DA INEXISTÊNCIA APÓS A MORTE

Em um dos textos escritos pelo “bereano” ele citou o versículo abaixo com o objetivo de provar biblicamente que a morte resulta na própria inexistência da alma:

“Por que não perdoas as minhas ofensas e não apagas os meus pecados? Pois logo me deitarei no pó; tu me procurarás, mas eu já não existirei”. – Jó 7:21, NVI; “não existirei mais”, ACR.

Há uma consideração pormenorizada sobre esse texto de Jó no apêndice B do meu livro “Obras Teológicas e de Referência Apoiam o Aniquilacionismo?”. Por isso, não há necessidade de comentá-lo novamente aqui. No apêndice está demonstrado que o contexto global do livro de Jó, e o da própria Bíblia, não permite uma leitura materialista do referido versículo. De qualquer maneira, o autor do MB se valeu dele para afirmar o seguinte:

“Naturalmente, como afirmam que a alma ‘continua existindo depois da morte [ativa e consciente]’, os defensores do conceito da ‘imortalidade da alma’ se recusam terminantemente a aceitar que este texto se refere à alma. Por mais que o versículo use o pronome pessoal (‘eu’, referindo-se claramente à pessoa ou alma)... Após a morte, o corpo se decompõe... o corpo deixa de existir... embora seja verdade que um indivíduo vivo que está dormindo continua a existir, isto não se aplica a quem morreu. Esta pessoa deixou de existir. Isso não é afirmação dos ‘aniquilacionistas’!” – Autor do MB, em “Textos ‘Mal Aplicados Pelos Aniquilacionistas’?”.

Bem, ao menos ele admite que o conceito de alma pode estar implícito numa sentença sem que haja necessariamente o uso da palavra “alma”. O problema é que esse critério é utilizado por ele apenas de acordo com a conveniência, sendo rapidamente descartado, por exemplo, quando o “bereano” se depara com aquele texto onde Paulo disse que ficaria ausente do corpo (físico) para ir estar com Cristo... – Filipenses 1:21-23; conf. 2 Coríntios 5:8, 9.

Em suma, de acordo com o entendimento supracitado do autor do MB o que acontece à alma e ao corpo de quem morre é exatamente a mesma coisa. Ou seja, ambos deixam de existir completamente. Mesmo assim, para ele, isso não é um raciocínio aniquilacionista e muito menos materialista (!). No entanto, ao passo que ele diz no trecho citado que o versículo de Jó se refere à inexistência da alma, em outros lugares ele sustenta o entendimento contrário, em óbvia contradição de argumentos. A seguir um exemplo:

“Nem ele [Nelson Darby], nem qualquer cristão que aceita o testemunho das Escrituras endossaria a conclusão de que [após a morte] ‘Cristo deixou de existir entre a tarde de uma sexta-feira e a manhã de um domingo”. – Autor do MB, em “Esforços Para Anular o Que Disseram os Eruditos Bíblicos”.

Ora, mas não é precisamente a inexistência da pessoa que a morte provoca, de acordo com crença materialista que o autor do MB defende? (Embora não queira classificá-la assim, por inconvenientes óbvios). Naturalmente, a única saída possível para sair desse engodo voluntário é recorrer à ideia de que os mortos não apenas estão simbolicamente dormindo, mas também que estão simbolicamente vivos na memória de Deus e que por isso Ele pode recriá-los, transferindo todas as informações guardadas em Sua mente para novos corpos (os ressuscitados seriam então “cópias” fiéis das pessoas originais). E essa é a linha de raciocínio que o “bereano” parece seguir, conforme ele disse em um artigo mais antigo que menciona a afirmação de Jesus sobre os mortos continuarem vivos para Deus:

“Nem Jesus, nem aqueles homens disseram uma só palavra a respeito de ‘sobrevivência da alma ou do espírito após a morte’ nesse episódio, e até agora ninguém provou que quando Jesus falou em Abraão, Isaque e Jacó estarem ‘vivos do ponto de vista de Deus’, ele quis dizer que os três patriarcas “continuavam vivos em outro lugar” (além de [vivos] na mente de Deus). Isso nada mais é que desejo dos promotores do conceito da ‘sobrevivência da alma após a morte’.” – “Espíritos Desencarnados” Mencionados na Bíblia?

É uma argumentação semelhante à da religião que o “bereano” fazia parte, as “Testemunhas de Jeová”:

“Quase dois mil anos depois da morte de Abraão, Jesus Cristo garantiu: ‘Que os mortos são levantados, até mesmo Moisés expôs, no relato sobre o espinheiro, quando ele chama Jeová “o Deus de Abraão, e o Deus de Isaque, e o Deus de Jacó”. Ele é Deus, não de mortos, mas de viventes, pois, para ele, todos estes vivem.’ (Lucas 20:37, 38) Além de Abraão, de Isaque e de Jacó, há milhões de outros humanos mortos que estão vivos na memória de Deus, aguardando a vindoura ressurreição. ‘Há de haver uma ressurreição tanto de justos como de injustos’, confirma a Bíblia. — Atos 24:15”. – A Sentinela, 15/6/94, pp. 3-4.

De modo que é dentro de tal perspectiva que as seguintes declarações que ele fez mais recentemente devem ser compreendidas:

“Nem o sono literal (dos vivos), nem o sono em sentido simbólico (dos mortos) é simplesmente o ‘sono do corpo’ e sim o da pessoa. Em ambos os casos é a pessoa quem está inconsciente, não o corpo”.

“O sono duma pessoa viva é muito menos profundo do que o sono duma pessoa morta, já que ninguém, exceto Deus, pode despertar esta última”. (Despertar em sentido simbólico, óbvio, pois, conforme visto, para o “bereano” não existe ninguém para ser literalmente despertado).

Sendo assim, conforme já comentado, tal simbolismo que tenta explicar a “existência” de quem não mais existe resulta na conclusão lógica de que todos os que morreram continuarão “vivos” para sempre, pois Deus sempre terá em Sua mente as informações de todas as criaturas que já viveram no mundo. Se não fosse assim ele não seria onisciente e todo-poderoso. Para sair dessa implicação seria preciso outro simbolismo, como dizer que Ele se esquecerá apenas figurativamente dessas pessoas indignas da vida eterna.

Ou seja, essa brincadeira de saltar entre literalismo e simbolismo conforme a conveniência não tem fim (dentro da mentalidade aniquilacionista). É claro que algumas declarações bíblicas são simbólicas ou precisam ser entendidas de uma maneira especial não evidente na superfície do texto, porém a própria Bíblia geralmente dá indicativos de que tal leitura alternativa pode ser feita. Determinar quando isso ocorre é um dos papéis da exegese. Mas não é isso o que acontece nos argumentos do autor do MB, e o caso acima exemplifica bem esse problema.

B. COMUNICAÇÃO COM O AUTOR DO MB

Em 17 de junho de 2018, eu enviei um email para o site Mentes Bereanas, com cópia para alguns que eu sei que colaboram para mantê-lo. O objetivo dessa comunicação foi compartilhar antecipadamente com eles uma parte das informações apresentadas neste artigo. O desenrolar da “conversa” atesta o quão disposto o autor do MB está em analisar seriamente o notório problema que tem sido as citações que ele faz dos eruditos. E no dia seguinte enviei o email a seguir, informando que publicaria um novo artigo no meu site sobre esse assunto:

Bom dia, “bereanos”.

Gostaria de informar que escrevi um texto baseado no email que enviei para vocês e o mesmo será publicado no meu site no decorrer desta semana.* Ele é um pouco mais abrangente do que aquela comunicação que enviei. Compartilho abaixo alguns trechos. O que está na seção 4, por exemplo, não foi tratado no email enviado antes. Por isso, recomendo que a leiam.

* O que acabou não ocorrendo, pois resolvi esperar mais um pouco.

Caso não tenham lido o email, acredito que o que está abaixo transcrito é suficiente para vocês entenderem o cerne do problema.

. . . .

[Parte omitida, por conter as mesmas informações apresentadas em trechos deste artigo]

Daí, em 19/06/18 recebi o seguinte email do autor do MB:

Prezado Adelmo Medeiros,

Sim, é sempre bom querer definir “o cerne do problema”, e só temos a agradecer por sua objetividade. Esta resposta tem esse mesmo fim.

Em primeiro lugar, a essa discussão acerca da condição dos mortos, como já lhe foi dito em várias ocasiões, dedicamos relativamente pouco tempo, já que não encaramos isso como prioritário, e muito menos como “assunto de salvação”. A propósito, pode ser de interesse a matéria de Raymond Franz sobre este tema, que o irmão Esteban Lopez republicou recentemente no site dele (aqui). Traduzimos também um artigo dele que tem relação com este assunto (aqui).

No caso da matéria publicada no MB a que se refere, a ideia é simplesmente reafirmar o que os eruditos disseram objetivamente sobre o assunto, nas citações que se encontram presentemente no nosso site. Outros assuntos, tais como as crenças pessoais do autor, ou mesmo supostas posturas subjetivas dele, tais como “negação da realidade” e outras, não interessam a nós, nem aos nossos leitores. A última matéria que foi publicada sobre isso (aqui) é representativa dessa diretriz.

Mas, é claro que você é livre para discutir outros assuntos em seu site; nada temos a dizer sobre isso. Porém, desnecessário é dizer que se este email que nos enviou é mesmo representativo do que pretende publicar, tal publicação não será nem mesmo lida, o que dirá discutida, já que os conceitos que você mantém (e isso é um direito seu, bem entendido) sobre o que outros autores acreditam, a formação religiosa deles, o 'estilo literário' deles, as “alcunhas” deles, a "razoabilidade" deles, etc., são de seu exclusivo interesse. Realmente não vemos razão para nos preocuparmos com essas coisas, além do que isso nada acrescenta à discussão.

É tudo o que temos a dizer. Esperamos que esteja tudo bem em sua vida e desejamos as bênçãos divinas para você e os seus.

MENTES BEREANAS

Embora não seja o ponto importante aqui, essas recomendações do final deixam transparecer um determinado grau de hipocrisia, visto que ao longo de suas críticas sobre mim (quer dizer, sobre os “imortalistas”), o autor do MB não poupa palavras ácidas para dizer o quão nocivos seriam os meus textos e o quanto eu estaria me afastando de Deus por conta deles... Mas, enfim, no mesmo dia enviei a seguinte resposta para ele:

Bem, acho que ficou claro no rascunho que enviei que o problema não é a crença em si que você defende. Isto também não é importante para mim, pois você está igualmente em seu direito de crer no que quiser. 

O ponto principal do “cerne” a que me referi é que a sua afirmação de que todos os eruditos citados apoiam a sua crença é completamente fantasiosa, a exemplo do que foi feito com Nelson Darby. Ou seja, é mentira mesmo! Nas citações transcritas no rascunho isso está provado. Não dar a devida atenção a isso e insistir no erro é uma postura que não condiz com os valores que você diz abraçar. Mas se prefere continuar fazendo vista grossa aos fatos, tenho só que lamentar. Ao menos os que conhecerem o site MB e lerem o artigo quando ele estiver publicado saberão a verdade. Ou seja, a exposição não terá sido em vão.

A seguir mais um trecho do artigo (ainda não tive tempo de incluí-lo no site, nem produzir o PDF do documento inteiro).

. . . .

[Parte omitida, por conter as mesmas informações apresentadas em trechos deste artigo]

No mesmo dia, em 19/06/18, eu recebi a seguinte resposta:

Sim, agradecemos por respeitar nosso direito de crença. Como foi dito, os seus conceitos pessoais sobre outros autores e as crenças deles não são de nosso interesse, nada mais será dito sobre este assunto e suas matérias relacionadas a isso não serão lidas. Mas, relacionado com isso, e se ajudar em alguma coisa, só nos chamou atenção estas declarações:

“Bem, acho que ficou claro no rascunho que enviei que o problema não é a crença em si que você defende. Isto também não é importante para mim, pois você está igualmente em seu direito de crer no que quiser.”

...

“A pergunta que se infere da declaração acima é: o ‘bereano’ se acha ou não pertencente ao grupo de pessoas ‘do povo de Deus’ que acredita no aniquilacionismo?

Seria bom verificar isso, pois parece haver mesmo um “erro de concordância” aqui...

Com relação às evidências objetivas que os eruditos cristãos têm publicado ao longo dos séculos, há um grande número de publicações que futuramente serão incluídas no Mentes Bereanas, para enriquecer esta discussão. Infelizmente não temos o tempo necessário para fazer isso agora. Mas, coincidentemente, o trecho abaixo acabamos de receber de um de nossos correspondentes que se dedicam a essa questão com afinco. Aproveitamos para compartilhar com você:

“If we base our hope for life after death on the theory of immortality, we are putting our faith in man – in this immortal something in man. If we base our hope on the Christian ground of resurrection, we are placing our faith in God rather than in man – in the divine power and goodness rather than in human nature. Surely this makes a tremendous difference, if we believe in God at all. The theory of immortality says that we will live beyond the grave because we are incapable of dying. The Christian claim of resurrection asserts that we will live beyond the grave because God, in His mighty love and loving might, raises us from death to life. In whom do we put or trust: in God, or in ourselves?”

Renovamos mais uma vez os votos de felicidade e que tudo corra bem em seus projetos pessoais.

Fique com Deus!

MENTES BEREANAS

Em 21/09/18 enviei a resposta abaixo:

Prezado,

O meu desinteresse pela sua crença se dá apenas por dois fatores: (1) sua liberdade dada por Deus em acreditar no que quiser e (2) o fato de já estar mais do que comprovado que ela está errada. Por isso, não é um erro de concordância. Mas uma discordância fundamentada e objetiva. E isso não significa que você, por abraçar tal crença errônea, se tornou veículo do mal e está se apartando de Deus, e será contado ‘entre os cães lá fora’ que não entrarão em Seu reino, conforme você disse sobre mim em seu argumento. Quer dizer, sobre os “imortalistas” que “distorcem” os eruditos, pois você não usa o discurso ad hominem... (Que tem sido confundido com o ad personam). Isto também recebeu o devido destaque no meu artigo, embora não seja o ponto mais importante e perde até para o nobre objetivo de esclarecer as testemunhas “de” Jeová sobre as falhas de sua religião, conforme você bem faz em seu site.

Mas deixe-me ver se eu entendi. Eu apresentei para você diversas citações do próprio Nelson Darby e outros onde se vê em afirmações nada duvidosas que eles não ensinam o que você acredita e mesmo assim isto é apenas ‘minha opinião pessoal sobre os eruditos sobre a qual você não tem nenhum interesse’? Desculpe-me a franqueza, mas a menos que haja alguma disfunção cognitiva ou problema de intelecção da sua parte, de desconhecimento de quem está do outro lado, acho que as únicas conclusões a que posso chegar é que isso não passa de cinismo ou desonestidade. Se não for este o caso, por favor, me corrija, apresentando, porém, argumentos objetivos, sem aquele monte de rodeios comumente vistos em seus textos, com infindáveis citações de terceiros quando quer fugir de uma evidência inconveniente que foi apresentada.

E com respeito à ressurreição dos mortos e o destaque que os antigos cristãos deram a ela, isso nunca mudou na história da igreja primitiva, mesmo entre aqueles que você acusa de terem ‘defendido o platonismo’, não obstante em séculos posteriores esse discurso tenha perdido protagonismo devido à crença cristã de que Jesus recebe imediatamente os fiéis que falecem. Mas o conceito da ressurreição nunca mudou. Ela sempre foi o foco principal e não o que era ensinado pelo platonismo, que costumava ser combatido pelos primeiros escritores patrísticos no que concerne ao que acontece à alma. Você não sabe disso porque nunca leu tais obras na íntegra. Por isso recomendo que o faça, para acabar logo com esse negócio de ficar somente citando outros autores sem confirmar com os próprios olhos as informações apresentadas. Enquanto isso, os textos abaixo podem ser de grandíssima ajuda:

A filosofia grega influenciou mesmo o conceito do Cristianismo sobre imortalidade?

O que ensinaram os escritores cristãos do segundo século?

O verdadeiro conteúdo das advertências apostólicas sobre falsos ensinos

De posse desses conhecimentos, você perceberá sem muita dificuldade (pelo menos deveria ser assim...) que os cristãos de todo período patrístico inicial eram ridicularizados pelos filósofos gregos por acreditarem que os mortos voltariam a viver em corpos carnais semelhantes aos que possuíam antes do falecimento, embora aptos para se transmutarem em corpos gloriosos para viverem tanto no céu como na Terra, conforme se infere da própria ressurreição de Jesus e do que o apóstolo Paulo escreveu a respeito. Essa visão era ridícula para os gregos, tanto os do período homérico (que acreditavam que os mortos viravam fantasmas no Hades), época em que não havia cristãos, quanto do período posterior da filosofia de Platão e afins, que defendiam que o corpo carnal é algo mau, sendo para sempre descartado quando se morre, ao passo que a consciência (“alma”) viverá no mundo das ideias de maneira absolutamente incorpórea, quem sabe na forma de uma esfera. Os cristãos nunca acreditaram nessas coisas. Se você realmente respeita os seus leitores, se inteire primeiro desses conhecimentos e leia o material sugerido antes de escrever sobre coisas que você não sabe. Isso o ajudará a não passar vergonha em público.

E para não restar dúvida que os cristãos que você diz que foram “corrompidos pelo platonismo” sempre consideraram que o tema principal da fé cristã, no que diz respeito à vida depois da morte, era mesmo a ressurreição física e não o período de vida que passariam com Cristo antes desse momentoso evento, leia, para começar, as obras patrísticas abaixo. Já que você sabe inglês, creio que isso não será uma tarefa impossível, como tem sido entender o que eu escrevi a respeito.

Fragments of the Lost Work on the Resurrection (Justino)

On the Resurrection of the Flesh (Tertuliano)

The Resurrection of the Dead (Atenágoras de Atenas)

On the Soul and the Resurrection (Gregório de Nissa)

E destes acima até mesmo o que está mais adiantado na corrente do tempo, e que seria o mais “platonista” de todos, jamais perdeu o ensino da ressurreição de vista:

 “Basílio, grande entre os santos, partiu desta vida para Deus; e o impulso de lamentar por ele foi compartilhado por todas as igrejas. Mas sua irmã, a professora, ainda estava viva; e então eu viajei até ela, ansiando por um intercâmbio de encorajamento pela perda de seu irmão. Mas quando estávamos na presença um do outro... despertou toda a minha dor; porque ela também estava deitada em estado de prostração até a morte... Então ela tentou me repreender, falando e corrigindo com a concretude de seus raciocínios a desordem da minha alma. Ela citou as palavras do apóstolo sobre não ficar entristecido por aqueles que dormem’; porque apenas ‘homens sem esperança’ têm tais sentimentos... Penso que os opositores dessa doutrina [da ressurreição] podem ser gradualmente levados a considerar a possibilidade que não é absolutamente impossível que os átomos se juntem novamente e formem o mesmo homem de antes... Esta reconstituição da vida humana, que aprendemos nestes escritos do ensinamento de Deus, é chamada de a Ressurreição, a total mudança dos átomos que ocorre a um só termo pelo levantamento daquilo que está realmente prostrado no chão”. – Gregório de Nissa, em “Sobre a Alma e a Ressurreição”.

Sendo assim, não importa qual visão o povo de Deus teve ao longo dos milênios sobre como estariam depois da morte, sejam como “sombras’ tristes e sonolentas no Seol ou de pessoas felizes com Cristo em um período intermediário antes da ressurreição, ou mesmo sofrendo no Hades (inferno) no caso dos infiéis. O foco sempre foi o retorno à vida nesta Terra mediante a ressurreição da carne, para que todos vissem o poder de Deus sobre a morte. Ou seja, será o ressurgimento físico neste mundo. Os gregos nunca acreditaram nisso. A vida eterna só será completa depois desse acontecimento futuro. Qualquer situação intermediária é usufruída em caráter temporário. É nisso que os primitivos cristãos acreditavam e enfatizavam. A situação hoje se inverteu um pouco e apologias se multiplicaram a favor da “imortalidade da alma” (do ponto de vista cristão, não do grego), e pouco se fala da importância da ressurreição, não porque esse conceito foi abandonado, mas devido aos aniquilacionistas terem perdido de vista o contexto historiográfico acima descrito. A ressurreição do corpo carnal nunca perdeu sua relevância, ao menos entre os que aderem à chamada ortodoxia cristã.

E para concluir, veja abaixo trechos de Robert Farrar Capon, outro teólogo que você cita em favor do que acredita (!). Mas o que ele diz aí deve ser também uma “opinião pessoal” minha, não é mesmo? Da mesma maneira que John C. L. Gibson, também citado por você, que disse que Abraão não tinha noção de sua sobrevivência imediata depois morte porque os primeiros hebreus não tinham sido informados ainda sobre ela...

 “A velha balela sobre o céu ser para os bons e o inferno para os caras maus está completamente errada. O céu É povoado inteiramente por pecadores perdoados... e o inferno É povoado inteiramente por pecadores perdoados. A única diferença entre os dois grupos é que aqueles que estão no céu aceitam o perdão e aqueles que estão no inferno o rejeitam”. – The Mystery of Christ… And Why We Don’t Get It, Eerdmans, 1993, p. 10.

(Alguém que não existe ou está “dormindo” pode nutrir sentimentos como o de aceitar ou rejeitar alguma coisa?)

“Sem dúvida, a aniquilação deixaria uma eternidade mais agradável [para os pecadores impenitentes]. Mas, aparentemente, a aniquilação não é uma das opções de Deus”. – Between Noon and Three: Romance, Law, and the Outrage of Grace, Eerdmans, 1997, p. 276.

“Uma vez eu fui acusado de ser um universalista e não acreditar nas doutrinas das Escrituras sobre o inferno e a punição eterna... Mas eu não sou um universalista... Encaro com toda a seriedade tudo o que Jesus tinha a dizer sobre o inferno, incluindo o tormento eterno de modo que uma insensibilidade tola de não aceitá-lo implicaria em sua aceitação”. – The Romance of the Word: One Man's Love Affair with Theology: Three Books, Eerdmans, 1995, pp. 9, 10.

Atenciosamente,

Adelmo Medeiros

Por fim, em 21/06/18 recebi a seguinte negativa:

Enfatizando o que já lhe foi dito:

“...os seus conceitos pessoais sobre outros autores e as crenças deles não são de nosso interesse, ... e suas matérias relacionadas a isso não serão lidas.”

Com relação às evidências objetivas que constam nas obras eruditas presentemente publicadas no Mentes Bereanas, a última coisa escrita foram os comentários sobre as deturpações da Enciclopédia Católica. O que consta nos verbetes dela sobre a questão foi reafirmado, contrapondo-se a essas deturpações. Estes comentários podem ser vistos por nossos leitores aqui.

Sem mais,

MENTES BEREANAS

Embora não se possa levar muito a sério essa declaração de que o texto que escrevi por último não será lido, visto que ler o que escrevo é justamente o que o autor do MB faz para publicar suas críticas, as palavras dele deixam claro o embotamento mental em que se encontra, bem como sua profunda negação de admitir que está citando autores que nunca defenderam o que ele acredita. Quem tiver lido este artigo até este ponto não deverá ter dúvidas quanto a isso.

C. CONVERSA COM UM AMIGO SOBRE AS ATITUDES DO “BEREANO”

Um amigo meu, que já foi da religião “Testemunhas de Jeová”*, escreveu o email abaixo depois que soube dessa recente discussão sobre o uso de obras teológicas e o comportamento renitente do “bereano”:

Oi Adelmo.

Então rapaz, essa coisa do “não me escreva mais” é mesmo muito ruim de ouvir porque soa como uma espécie de desassociação, né? :) 

Agora, é preciso a gente lembrar que a gente não vai convencer todo o mundo; algumas pessoas simplesmente não aceitarão o nosso ponto de vista; esta é a hora de a gente aceitar e tocar pra frente.

Você pode escrever para mim quantas vezes quiser. Eu apenas não garanto que vou ler tudo, ou concordar com tudo.

Uma das coisas que eu tô aprendendo é não levar tudo a sério demais a ponto de me estressar; estresse é horrível para a saúde.

Abraços.

João Pedro**

* Na verdade, ele não foi desassociado da religião TJ, apenas deixou de frequentá-la. Mesma situação do dono do site Mentes Bereanas. “Desassociação” é como as TJs chamam a excomunhão, que para elas consiste em não falar mais com ex-membros, nem sequer cumprimentá-los.

** O nome foi trocado.

Daí eu respondi:

Olá João,

Você não entendeu o ponto principal da questão com o “bereano”. O cerne do problema não é que não consigo convencê-lo. Não me importo nem um pouco com as crenças dele, e nem tampouco acho que elas o desabonam. Ele poderia acreditar no que quisesse, que eu o apoiaria da mesma maneira qual cristão. Ainda que nesse aspecto de tolerância ele pense exatamente o contrário. Também não tem a ver com minha “desassociação” por parte dele e seus procedimentos (e linguagem) de “comissão de filial” da Torre de Vigia. Isso não é importante.

A questão é que ele, aparentemente de maneira desonesta, está apresentando falsas informações e fazendo de conta que não viu. Por exemplo, eu citei um trecho de uma enciclopédia bíblica para demonstrar esse mau uso que ele faz de obras bibliográficas. Daí ele recortou um pedaço dessa citação, a que está abaixo transcrita, e fez um comentário sobre ela:

Toda a doutrina do futuro julgamento no Novo Testamento pressupõe a sobrevivência após a morte”. 

Ele disse que essa sobrevivência não é a alma da pessoa ir para outro lugar, mas a pessoa ser recriada no futuro por Deus a fim de ser julgada, pois os hebreus não tinham esse sentimento de sobrevivência após a morte, conforme se vê no Antigo Testamento. De acordo com tal conceito, depois da morte a pessoa entraria em um período de inexistência ou “sono” figurativo. É aquela velha história aprendida na religião TJ, ainda que hoje em dia o “bereano” não queira chamar tal estado de inexistência (mesmo significando exatamente isso). Prefere dizer que a pessoa entra em um período de completa inatividade e inconsciência absoluta. No entanto, veja abaixo o que o trecho completo da citação realmente diz a esse respeito:

Seja qual for o ponto de vista assumido a respeito do desenvolvimento da doutrina da imortalidade da alma no Antigo Testamento (veja Escatologia do AT), dificilmente haverá dúvida que é completamente assumido no Novo Testamento que as almas dos homens, bons e maus, sobrevivem à morte (veja Imortalidade). Só há necessidade de se referir a duas passagens para provar isso: uma, os dizeres de Cristo em Mat. 10 28: ‘Não temais os que matam o corpo, mas não podem matar a alma; antes disso, temam aquele que pode destruir tanto a alma quanto o corpo no inferno’ (Geena); a outra, a parábola do Homem Rico e Lázaro em Luc. 16:19-31: Lázaro é carregado pelos anjos ao seio de Abraão; o rico levanta os seus olhos no Hades, estando em tormentosToda a doutrina do futuro julgamento no Novo Testamento pressupõe a sobrevivência após a morte”. - The International Standard Bible Encyclopedia, EUA, 1915, Vol. 4, verbete “Punição”, p. 2502.

Como se nota, pelo contexto, a sobrevivência mencionada é imediata. Só o julgamento é futuro, de acordo com a enciclopédia, que inclusive traz diversas outras afirmações, tais como (1) que na morte o corpo se dissolve, mas a pessoa permanece e vai para Cristo e (2) que os apóstolos estavam familiarizados com a possibilidade do espírito de alguém que morreu aparecer para humanos, como foi o caso do espírito do profeta Samuel. O mesmo se vê no episódio da transfiguração, quando Moisés e Elias apareceram para Jesus e os apóstolos, e conversaram sobre a morte iminente de Jesus. Os apóstolos acreditavam tanto nisso que chegaram a oferecer barracas para Moisés e Elias passarem a noite! (O que pressupõe, talvez, que eles achavam estar diante de espíritos materializados).

Essa perspectiva de sobrevivência imediata foi apresentada pelos apóstolos Pedro e Paulo em suas cartas:

. . .

Então, neste ponto do email, eu citei alguns textos bíblicos e um patrístico, todos do primeiro século, os quais confirmam o que eu disse. São as cartas de Paulo, Pedro e Clemente, que foram citadas e comentadas na seção 3. Logo após, prossegui:

O autor do MB pode sim não aceitar nada dessas coisas, e não há nenhum problema para mim, pois Deus nos dá essa liberdade. No entanto, ele não pode dizer que os eruditos que ele cita estão todos corroborando tal entendimento contrário. E ainda por cima dizer que eu, por denunciar esse mau uso de fontes teológicas, é que estaria deturpando os eruditos e agindo de maneira anticristã, e por isso atribui a mim todos aqueles termos pejorativos.

Será que eu fui mais claro agora? Não deixe de me responder, está bem?

Um forte abraço!

Logo em seguida, recebi a seguinte resposta:

Oi Adelmo.

Explicado deste modo, o seu ponto de vista ficou mais claro ainda. :)

“A questão é que ele, aparentemente de maneira desonesta, está apresentando falsas informações

Adelmo, querido amigo, agora eu acho que é voce quem não entendeu. :)

Que vantagem teria o “bereano” em ser desonesto a este ponto? Ele não ganha nem dinheiro, nem seguidores, até onde me consta. Pense nisso. 

Aparentemente, ele apenas tem um entendimento diferente do seu. Afinal, ele não gastaria tanto tempo e energia defendendo algo simplesmente para enganar alguém, certo? 

Então a gente acaba sendo forçado a crer que a pessoa interpreta os mesmos escritos de uma maneira diferente. É o que eu penso.

Aquele abraço.

Diante dessa conclusão dele de que eu poderia estar enganado sobre o que justificaria o comportamento do “bereano” ao tratar de maneira leviana esse assunto do aniquilacionismo, detalhei um pouco mais o meu argumento em um segundo email. Dentre as coisas que escrevi eu disse o seguinte:

. . . .

Sim, certamente há determinados assuntos que permitem variabilidade de interpretações e pontos de vista diferentes. No entanto, outros não dão margem para isso. O objeto da discussão com o “bereano” pertence ao segundo grupo. O que ele fez é pior do que se alguém pegasse a obra de Karl Marx, a exemplo do livro “O Capital”, e dissesse que Marx é favor do capitalismo e contra o proletariado...

. . . .

Em seguida apresentei as citações da International Standard Bible Encyclopedia que estão na seção 6, as quais comprovam que a crença bíblica de “sobrevivência após a morte” mencionada pela enciclopédia é mesmo imediata e não em um futuro distante e indeterminado (se fosse assim, tal situação nem poderia ser chamada de “sobrevivência”, semanticamente falando).

Na verdade, nem precisa se ater a todas as informações apresentadas na enciclopédia a respeito desse ponto, pois o parágrafo SEGUINTE de onde o “bereano” tirou a frase “sobrevivência após a morte”, e quis dar outro sentido a ela, enfatiza o raciocínio da seguinte maneira:

As seguintes passagens são decisivas: Isa. 3:10,11; Mat. 11:22,24; 12:41,42; Rom. 2 5,12; 2 Cor 5:10; Gal 6:7, 8, etc (veja Retribuição). A consciência durante a punição pelo pecado no estado futuro já está implícita nos textos precedentes. A parábola do Homem Rico fala disso como se seguindo imediatamente à morte no Hades; todas as descrições do julgamento implicam dor e angústia como resultado da condenação (cf. Rom 2:5,12). Isso não determina a natureza ou a duração da punição; mas exclui a ideia de que a morte física é a extinção do ser, ou que a aniquilação se segue imediatamente depois da morte ou do julgamento.

 

O email que enviei prossegue:

Será que agora ficou claro que essa coleção teológica não serve para dar sustentação à crença do “bereano”?

Em caso afirmativo, falemos agora do outro problema. Por que ele agiria de maneira desonesta e ainda me acusaria falsamente do que ele próprio está fazendo? De fato, até onde eu sei, ele não está agremiando seguidores nem ganhando dividendos com o que escreve no Mentes Bereanas. Então, como explicar tal comportamento nada cristão? Ora, aquilo que faz parte de nossa personalidade humana: orgulho e preconceito. (Nenhuma relação direta com a obra de Jane Austen). Ele não quer dar o braço a torcer e admitir que meteu os pés pelas mãos e prefere ficar engalfinhado nesse engodo que ele próprio construiu. Esta é a única explicação que me vem à mente. Se você tiver outra, por favor, me diga.

De qualquer maneira, no início dessa discussão, o autor do MB não conhecia determinados detalhes nem sempre tão explícitos nas obras eruditas. Hoje ele já sabe, porque eu expliquei para ele. Mas ele não aceita de jeito nenhum. Alguns deles estão mencionados nas partes supracitadas da Standard Bible Encyclopedia.

Por exemplo, na época dos antigos hebreus...

Neste ponto da mensagem eu repassei algumas das informações que estão apresentadas no artigo “As armadilhas da ‘imortalidade da alma’ e da literatura dos problemas”. Em seguida, concluí:

É isso, meu amigo. Espero sinceramente que você tenha lido o que eu escrevi acima, valorizando assim o tempo que eu gastei para apresentar esse apanhado geral de informações. Sempre me preocupo quando escrevo emails um pouco mais longos para você porque você já me disse que não gosta de ler emails grandes. Mas fica aí ao seu critério decidir se vai ler tudo, caso pule logo para esta parte. :-)

Tenha uma ótima semana!

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TRADUÇÕES DA BÍBLIA UTILIZADAS

ACR: Almeida Corrigida e Revisada Fiel

BJ: Bíblia de Jerusalém

CNBB: Conferência Nacional dos Bispos do Brasil

MC: Missionários Capuchinhos

NKJV: New King James Version

NTLH: Nova Tradução na Linguagem de Hoje

NVI: Nova Versão Internacional

PER: Bíblia do Peregrino

TB: Tradução Brasileira (da Sociedade Bíblica Britânica)

TEB: Tradução Ecumênica da Bíblia

TNM: Tradução do Novo Mundo (de 1986)

 

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